JANEIRO BRANCO: MÊS DA SAÚDE MENTAL, SAÚDE MENTAL SEMPRE

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Falar de saúde mental é compreender que esta é, sem medo de ser audaciosa em minha posição, o território, o recurso natural, a tecnologia mais valiosa da existência que cabe ao ser humano explorar. Como ainda somos estrangeiros dentro de nós mesmos, apesar dos  importantes avanços que somos capazes de criar. 

As perspectivas de crescimento dos transtornos mentais e seus inegáveis danos à saúde e à produtividade por cada vez mais incapacitarem ao trabalho e ao desfrutar da vida, torna-se cada vez mais algo que não mais pode ser ignorado, daí a iniciativa de transformar o mês de Janeiro no mês da Saúde Mental -  JANEIRO BRANCO.

Em muitas ocasiões o PSICOLOGIA EM FOCO falou sobre o quanto se tornou insustentável manter a separação corpo e alma - O penso, logo existo de Descartes, somado a todos os pensadores que forjaram a estrutura e o funcionamento do Ocidente, tem se mostrado ineficaz ao longo dos anos para dar conta da comp…

TDAH - TRANSTORNO DÉFICIT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE


O especialista fantasma
A edição de 30 de outubro de ÉPOCA traz o artigo A Doença Fantasma, de SUSAN ANDREWS, psicóloga que é monja iogue e que critica o tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) com medicamentos. Vamos aos comentários:
1) “Desde quando esses comportamentos infantis, variando de normais a indisciplinados, se tornaram uma doença?”
ABDA: desde o século XIX, quando autores não-médicos identificaram comportamentos numa minoria de crianças que não eram observados na grande maioria delas. O diagnóstico de TDAH é reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) há pelo menos 20 anos. Existem diagnósticos como câncer e hepatite, nos quais você está no grupo dos que “não têm” ou no dos que “têm”. Muitos outros diagnósticos são determinados arbitrariamente a partir de certo ponto, embora todo mundo tenha em algum grau aquelas características, como é o caso do TDAH. Não existe o grupo dos “desatentos” e dos “completamente atentos”, é uma questão de grau, do mesmo modo que ocorre com diabetes, hipertensão arterial e obesidade.

2) “Não há nenhuma evidência que ele esteja associado a uma disfunção física do cérebro”.
ABDA: existem pelo menos 100 artigos científicos (inclusive com fotografias comparando o cérebro de portadores de TDAH e de indivíduos normais) disponíveis na literatura científica.

3) “No Brasil estima-se que o TDAH atinja de 3% a 6% de crianças em idade escolar. Mais de 1 milhão de caixas foram consumidas em 2005. Virou moda no Brasil (...)”.
ABDA: A caixa de metilfenidato, usado no tratamento para TDAH, tem 20 comprimidos cada um com 10mg. Se a dose média é de 30mg, uma criança consumiria aproximadamente 5 caixas por mês e 50 caixas por ano (supondo que não seja usado nas férias). Se os dados do IBGE informam que existem 55 milhões de brasileiros com idades de 1 a 14 anos, significa que só são tratados 20.000, para um total de portadores de, no mínimo, 1 milhão e meio (!). Temos, portanto que aumentar nossos esforços para que mais pessoas sejam diagnosticadas e tratadas.

4) “(estas crianças) estão sendo sedadas”

ABDA: os medicamentos usados no tratamento do TDAH são estimulantes e não causam nenhum tipo de sedação.

5) “(estes medicamentos) podem provocar danos cerebrais permanentes e irreversíveis (...)”.
ABDA: qualquer indivíduo tem a obrigação moral de informar às autoridades de vigilância sanitária do Brasil e do mundo acerca de estudos científicos comprovando o que foi afirmado acima, uma vez que estes dados são graves e não são conhecidos pelo meio científico e acadêmico.

6) “Imagine agora se Winston Churchill – ganhador do Prêmio Nobel – tivesse sido sedado com drogas para hiperatividade” .
ABDA: realmente, se o seu filho tiver a inteligência e a capacidade invejável de Winston Churchill, a leitora não precisa se preocupar caso ele tenha TDAH, fobia, dislexia, depressão ou qualquer outra coisa. TDAH ocorre em qualquer indivíduo, à semelhança da epilepsia, por exemplo, e isto em nada modifica a necessidade de se tratar a doença na população.
Sugerimos que o leitor consulte a base de dados PubMed, a maior ferramenta de busca de pesquisas científicas do mundo, procurando saber se os articulistas que se dizem “especialistas” sobre TDAH alguma vez já publicaram pesquisas
A ÉPOCA inaugurou as colunas assinadas por especialistas fantasmas...

Paulo Mattos

Professor de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Presidente da ABDA – Associação Brasileira do Deficit de Atenção.


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