30 de set de 2009

TDAH - Transtorno Déficit de Atenção e Hiperatividade

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CNTE
"Eu me achava uma burra"
Data: 27/09/2009Horário: Veículo: VEJAEditoria: SEÇÕES Jornalista(s): Silvia Rogar
Assunto principal:
OUTROS
Entrevista Ana Beatriz Barbosa Silva
A psiquiatra conta como sofreu com o déficit de atenção na infância e como aprendeu a conviver com o transtorno que atinge 6% da população em idade escolar
Silvia Rogar
"No início da adolescência, bateu uma vontade enorme de mudar. Eu decidi ficar retraída, quieta, para não errar"
A psiquiatra carioca Ana Beatriz Barbosa Silva, 43 anos, especializou-se em traduzir para uma linguagem acessível o universo misterioso dos transtornos mentais. Seu último livro, Mentes Perigosas, apresentou as muitas faces dos psicopatas e há 44 semanas faz parte da lista dos mais vendidos de VEJA. Ela já havia feito uma primeira incursão vitoriosa. Seu Mentes Inquietas, sobre o transtorno do déficit de atenção (TDA), vendeu 200 000 cópias e está sendo relançado. Nesta entrevista, Ana Beatriz fala de sua experiência, da importância do diagnóstico precoce e afirma que, embora não tenha cura, o transtorno permite uma vida normal e criativa.
Como a senhora descobriu que tem o transtorno do déficit de atenção?
Eu já estava no 3º ano da faculdade de medicina. Tinha 19 anos. Fui a um seminário em Chicago sobre depressão. Consegui errar tudo: cheguei um dia e uma hora atrasada para a primeira aula. Como não apareci, minha inscrição foi cancelada. A atendente da faculdade viu meu desespero e disse que eu poderia me transferir para outro curso, com início naquele dia. O professor era John Ratey, papa do déficit de atenção. Ele começou a detalhar o transtorno e pensei que estivesse falando sobre mim. Chegou a ser incômodo. Quando a aula acabou, fui atrás dele conversar sobre meu comportamento desde a infância. No dia seguinte fiz um teste que revelou que eu tinha TDA em grau grave. Ele então me disse: "Sobreviver, você já sobreviveu. Sabe se virar, frequenta uma boa faculdade. Mas você mata um leão por dia". Comecei então o tratamento.
Foi um divisor de águas. Senti-me como um míope que põe o primeiro par de óculos e percebe que o mundo é cheio de detalhes. Usei a medicação por cinco anos consecutivos. Hoje, quando escrevo um livro, volto a tomá-la no último mês. É a hora em que junto todas as informações e preciso ter mais senso crítico.
O que provoca o TDA?
A pessoa que tem o transtorno nasce com uma alteração no funcionamento do lobo frontal. Essa seção do cérebro é um maestro do comportamento humano, uma área em que se cruzam sistemas neurais ligados à razão. Entre outras ações, regula a velocidade e a quantidade de pensamentos. No TDA, esse filtro funciona com eficiência menor. O resultado é a hiperatividade mental e, consequentemente, a perda de foco, de objetividade. Quem nasce com TDA não tem problema de inteligência, mas de administrar o tempo, fixar a atenção, dar continuidade ao que inicia. O transtorno é muito mais comum do que se imaginava. Segundo a Associação de Psiquiatria Americana, 6% da população em idade escolar tem esse padrão de funcionamento mental nos Estados Unidos. No Brasil, as pesquisas apontam uma média próxima a essa.
O que provoca essa alteração do funcionamento do cérebro?
É um transtorno químico, causado pela baixa de dois neurotrasmissores: a dopamina e a noradrenalina. Essa alteração diminui a ação filtrante do lobo frontal. A genética já mostrou ter papel importante, mas fatores externos acabam interferindo na evolução do transtorno. Se não é cercada por uma organização mínima, a pessoa pode ter sérios prejuízos em sua qualidade de vida.
"Quem tem TDA presta muita atenção naquilo que desperta seu real interesse. Por isso, é injusto falar de déficit de atenção. O que existe é uma atenção instável"
Como o transtorno interferiu em sua trajetória pessoal?
Sempre achei que havia algo errado comigo. Na escola, tinha horror a ditado. Meu coração disparava: sabia que precisava prestar atenção ao que a professora dizia e, simultaneamente, observar se não estava cometendo erros ao escrever. Nessas horas, eu me sentia a criança mais burra da sala. Fora do colégio, também sofria. Uma vez meu pai, que é professor, corrigiu tanto meu diário que botei fogo nas páginas depois. Vivia com as pernas roxas de tanto cair e bater nos móveis. Meu armário era uma bagunça absurda. Tenho uma irmã cinco anos mais velha, centrada, organizada. Durante muito tempo, dei a ela parte da minha mesada para que arrumasse meu armário. Todas as vezes que minha mãe reclamava comigo, eu concordava, entendia que ela tinha razão. Mas eu não sabia como tudo isso acontecia. No início da adolescência, bateu uma vontade enorme de mudar. Eu era uma criança falante e me fechei. Fiquei retraída, quietinha, para não errar. Vivia no meu quarto, lendo. Isso foi dos 12 aos 16 anos. Na infância me chamavam de pinga-fogo, porque eu não parava. Na adolescência, quando me tranquei, virei Bia Sid (de sideral). Às vezes, achava que era burra. Por outro lado, sabia que tinha conhecimento e imaginação. Acabava o dia com dor de cabeça de tanto pensar. Era uma angústia.
Mas a senhora hoje é uma psiquiatra bem-sucedida. Como conseguiu isso?
O diagnóstico foi libertador. Passei a me observar. Com a medicação, comecei a fazer mais rápido o que antes demandava muito esforço. Foquei na psiquiatria. No meu trabalho, nada me escapa hoje. Tenho um filme na cabeça sobre cada paciente. Quem tem TDA presta uma atenção acima da média naquilo que desperta seu interesse verdadeiro. É o que a gente chama de hiperfoco. Por isso, acho injusto falar de déficit de atenção. O que existe é uma atenção instável.
O menino com TDA pode sofrer na escola, mas desenhar muito bem ou tocar piano de ouvido, se essa for a sua paixão. Por isso, é fundamental que os pais descubram os talentos do filho e o estimulem a fazer aquilo de que realmente gosta. Para quem tem TDA, isso funciona como remédio.
Como sua família enfrentou o problema?
Minha mãe creditava meu comportamento a falhas do método pelo qual fui alfabetizada. Meu pai achava que era preguiça. Mas eles eram compreensivos, porque sabiam que eu não fazia nada de propósito e era honesta, sincera, assumia os erros. Voei de bicicleta no carro do vizinho e meu pai pagou o conserto sem reclamar. Quando eles buscaram um diagnóstico para meu comportamento, os médicos disseram que eu tinha uma disritmia e me passaram um remédio. Devido à sonolência que causou, parei logo de tomar essa medicação. Ainda bem.
Por natureza, as crianças costumam ser agitadas e inquietas. Quando os pais devem desconfiar que o filho sofre do transtorno?
Na infância, desatenção e impulsividade são normais. Mas, em geral, estão relacionadas a algum motivo específico: porque a criança dormiu mal, está preocupada com alguma coisa, apaixonou-se pela primeira vez. O que acontece é que uma criança com TDA tem esse comportamento de maneira constante e mais intensa. Ela já nasce com o cérebro funcionando dessa maneira e, antes dos 7 anos, é possível perceber isso. Na infância, existe uma profusão de sintomas - e não são notas baixas. O lençol não para na cama porque a criança se mexe demais durante a noite. Também pode falar dormindo. Os professores mandam recados dizendo que aquele aluno é extremamente inteligente, mas isso não se traduz nas avaliações. A criança também é excluída das brincadeiras na escola, porque tem dificuldade de esperar a vez nos jogos em grupo e manter a atenção nas tarefas. Olhar a agenda e os cadernos também ajuda muito: eles refletem a organização do pensamento e como a criança anota as observações que professores fazem durante as aulas. A condição fundamental para o diagnóstico de TDA é a hiperatividade mental. Ninguém adquire TDA ao longo da vida. Quem tem o transtorno já nasceu com esse tipo de funcionamento cerebral. É o histórico que leva ao diagnóstico preciso.
"Quando tive o diagnóstico e comecei o tratamento, eu me senti como um míope que põe o primeiro par de óculos e percebe que o mundo é cheio de detalhes"
Como foi sua vida escolar?
Nunca repeti ano. Conseguia passar nas provas finais ou na recuperação. Nessa hora, meus pais assumiam uma função, digamos, mais executiva. Eles me ajudavam a me organizar, e aí eu estudava como louca. Quando existe planejamento, vai tudo bem com a pessoa que tem TDA.
O que a senhora aconselha a quem descobre que o filho tem TDA?
A primeira coisa é ver o grau de sofrimento dessa criança, o nível de desconforto. É preciso ir à escola conversar com professores, ouvir a babá. A partir daí, dar oportunidade à própria criança para que ajude no tratamento, participe. Tenho um paciente que enlouquecia a família. Depois de usar medicação por dois anos e ter uma melhora estupenda, ele disse: "Já tenho noção de como é meu cérebro funcionando da maneira que tem de ser e queria parar de tomar o remédio, tentar do meu jeitinho". Ele ganhou uma percepção de seu comportamento. Outra coisa que os pais devem entender é que ser justo em questão educacional não é tratar os filhos todos da mesma maneira. Eles têm de ver o que cada um precisa. No caso do TDA, é fundamental dar ênfase à disciplina. Inclusive com a mesada. Como ele tende a gastar tudo de uma vez, o dinheiro tem de ser liberado aos poucos, para criar um limite e cumpri-lo. Com meus pacientes, por exemplo, costumo assinar um contrato toda vez que quero alguma coisa. Sempre funciona.
A senhora conta a seus pacientes no consultório que tem TDA?
Sim, e principalmente as crianças ficam muito aliviadas. Outro dia atendi um paciente que batia a cabeça na parede. A mãe pensou que o filho estivesse louco. E eu disse a ele: "É para tentar parar o excesso de pensamento, né? A cabeça pesa mesmo, mas não é assim que vai melhorar". Ele ficou impressionado porque eu entendia exatamente o que ele estava sentindo. No livro, publiquei experiências minhas com nomes trocados. Como as da estudante de fonoaudiologia que achava que tinha alguma falha de caráter porque se distraía nas aulas, pegava cadernos emprestados com amigas, tirava notas boas e se achava uma fraude.
Quais são as tendências mais modernas no tratamento do transtorno?
Antes, só existia o metilfenidato (a Ritalina). Mas 15% dos pacientes não respondem bem a ele. É uma substância que surte efeito quando a desorganização e a falta de foco são os fatores que mais atrapalham a vida. Ao longo desta década, a bupropiona, substância usada no tratamento para parar de fumar, mostrou-se muito eficiente também para TDA. A atomoxetina, um tipo de antidepressivo, também passou a ser usada - principalmente nos casos em que depressão e ansiedade se manifestam junto. Costumo dizer que a melhor medicação é a eficaz com a menor dose. Mesmo no tratamento de adultos, começo com dose de criança. E avalio o tratamento complementar necessário. A terapia cognitivo-comportamental tem-se mostrado muito eficaz.
Existe prescrição exagerada de medicamentos hoje?
Sim. Não se deve prescrever remédio de TDA em um momento de desatenção ou para aumentar a concentração no ano de vestibular, por exemplo. O excesso de informação pode levar o cérebro à exaustão, e a pessoa fica sujeita a distrações, falhas de memória. Mas isso é fruto de uma sobrecarga circunstancial. Quando acaba, os sintomas desaparecem. O que acontece é que, por desinformação, alguns pais solicitam a medicação antes de uma investigação cuidadosa sobre o funcionamento mental do filho. Em quem não tem TDA, o remédio cria um efeito falso, dá apenas vigor numa situação de cansaço extremo.
TDA tem cura?
Não tem cura, mas há grandes chances de um final feliz. No momento em que você entende sua engrenagem, passa a dominá-la em vez de ser dominado por ela. Aí pode até levar vantagens. O excesso de pensamento - que causa exaustão, desorganização e esquecimento - também traz ideias. Existem ideias boas e más. O grande aliado de quem sofre de TDA é um caderninho. Em qualquer lugar, eu anoto pensamentos que já deram origem a capítulos de livros. Mesmo para ideias sem sentido, é vital ter organização. Dali pode sair algo realmente inovador.
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27 de set de 2009

Gerenciando Propostas

"A idéia não é ser uma caixa de reclamações, mas sim de soluções". A frase do economista Otávio Sampaio, sócio do Riopro Informática, resume bem o que é o Zest. Lançado em dezembro do ano passado, o site (zest.com.br) é uma ferramenta para captar idéias de funcionários ou clientes de empresas, auxiliando-as a criar uma cultura inivadora.

A inicativa surgiu de um estudo sobre como a inovação vem evoluindo fora do país. Sampaio descobriu ferramentas com propostas similares no exterior, mas nada parecido no Brasil. A proposta é que, em poucos cliques, as companhias passem a contar com um fórum integrativo onde qualquer pessoa pode entrar para sugerir e votar em idéias, criando um ambiente colaborativo.

Para um empresa fazer parte desta rede, basta se cadastrar. Há opções de planos gratuitos e pagos com preços que variam de R$ 260 A r$ 1.220 mensais, dependendo da capcidade de usuários e da variedade de benefícios oferecidos, como fornecimento de relatórios e estatísticas de uso.

- O Zest já está sendo usado por 20 empresas. A expectativa é que até o final do ano o serviço atinja mais 50 - afirma Sampaio.

Fonte: JORNAL O GLOBO Caderno Boa Chance - Seção Click! PAG 8 dia 27/09/2009
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20 de set de 2009

A "Mesmice Robô" e os Convites da Vida


Somos humanos - Choramos, rimos, temos raiva - somos um monte de sentimentos num dia.

Há momentos em que viver é uma coisa muito pesada - a falta de tempo, os problemas na família, as dificuldades no trabalho e as coisas que só a gente e o nosso travesseiro sabem.

As lágrimas vêm, molham o travesseiro... Todo mundo em algum momento pensa que a carga da vida é além do que pode suportar. Mas , olhando para trás quanta coisa você já venceu? E é isso que faz cada um único, especial.

O sofrimento, as dificuldades podem ser entendidos por nós como Convites da Vida de todo dia para que a gente saia da "mesmice robô" - o dia corre e a gente não tem nem tempo de respirar. Tudo no automático...

- Acordar cedo para tomar um banho mais demorado e passar o hidratante que você gosta, enquanto a casa toda dorme.

- Andar na praia, olhar as pessoas, a paisagem ao redor, pisar na areia um pouquinho.

- Passear com a família, comer um cachorro quente num parque.

- Fazer uma receita maluca que tem tudo pra dar errado e comer vendo TV com aquela sua meia rasgada e o seu pijama mais velho (mas que é gostoso, porque ele se ajusta perfeito no seu corpo!!)

- Dar uma boa gargalhada!! A gente se leva tão à sério às vezes, né?!

- Cuidar da saúde.

- Sei lá! inventa aí sua lista!!

Porque saúde não são apenas ações concretas para trazer equilíbrio do corpo, mas também é uma atitude de olhar de modo diferente o dia a dia. É um exercício para toda a nossa vida!!


Fiz este texto como preparação dos funcionários da escola para o trabalho multidisciplinar que será realizado convidando todos a refletirem o que podem mudar em seu dia a dia para ter mais saúde e qualidade de vida mantendo o conceito de saúde integral.
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4 de set de 2009

Uma reflexão bastante conveniente nos tempos atuais

***O que está nos deixando doentes é uma...** epidemia de diagnósticos**
*
*
***
*
****
*por Gilbert Welch, Lisa Schwartz e Steven Woloshin***
CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA DE SÃO PAULO
http://www.cremesp.org.br/?siteAcao=Jornal&id=954
* Gilbert Welch é autor da obra Should I Be Tested for Cancer? Maybe Not and
Here’s Why (University of California Press). Lisa Schwartz e Steven Woloshin
são pesquisadores sêniores do VA Outcome Group em White River
Junction.
Este artigo foi publicado no jornal The New York Times, em 02/01/2007.
Tradução: Daniel de Menezes Pereira


Para a maioria dos americanos, a principal ameaça à saúde não é a gripe
aviária, a febre do Nilo ou o mal da vaca louca. Mas sim o próprio sistema
de saúde. Você pode pensar que isso é porque os médicos cometem erros (sim,
nós erramos). Mas você jamais será vítima de um erro médico se você não está
no sistema. A maior ameaça apresentada pela medicina americana é o fato de
cada vez mais estarmos nos afundando nesse sistema, não por uma epidemia de
doenças, e sim por uma epidemia de diagnósticos. Apesar de os americanos
viverem mais do que nunca, cada vez mais nos falam que estamos doentes.
Como isso é possível? Um dos motivos é que nós (americanos) empregamos mais
recursos aos cuidados médicos que qualquer outro país. Parte deste
investimento é produtivo, cura doenças e alivia sofrimentos. Mas isso também
nos conduz a cada vez mais diagnósticos, uma tendência que se transformou em
epidemia.
Essa epidemia é uma ameaça à saúde e tem duas fontes distintas. Uma delas é
a 'medicalização' da vida cotidiana. A maioria de nós passa por sensações
físicas ou psicológicas desagradáveis que, no passado, eram consideradas
como parte da vida. No entanto, hoje tais sensações são consideradas, cada
vez mais, como sintomas de doenças. Eventos como insônia, tristeza,
inquietação de pernas e diminuição do apetite sexual, hoje, se transformam
em diagnósticos: distúrbio do sono, depressão, síndrome de pernas inquietas
e disfunção sexual.
Talvez ainda mais preocupante seja a medicalização da infância. Se uma
criança tossir depois de fazer exercícios, ela tem asma. Se tiver problemas
com leitura, é disléxica. Se estiver infeliz, tem depressão. Se alternar
entre euforia e tristeza, tem distúrbio bipolar. Se por um lado esses
diagnósticos podem beneficiar algumas pessoas com sintomas graves, por outro
é necessário ponderar o real efeito de tais sintomas, que em muitos casos
são brandos, intermitentes ou transitórios.
Outra fonte é o empenho por descobrir doenças o quanto antes. Diagnósticos
eram usualmente restritos a moléstias graves. Hoje, no entanto, nós
diagnosticamos doenças em pessoas que absolutamente não apresentam sintomas,
os famosos 'grupos de risco' e as pessoas com 'predisposição'.
Dois progressos aceleram esse processo. Em primeiro lugar, a avançada
tecnologia permite que os médicos olhem profundamente para as coisas que
estão erradas. Nós podemos detectar marcadores no sangue. Nós podemos
direcionar aparelhos de fibra ótica dentro de qualquer orifício. Além disso,
tomografias computadorizadas, ultrassonografia, ressonâncias magnéticas e
tomografias por emissão de pósitrons permitem que os médicos exponham, com
precisão, tênues defeitos estruturais do organismo.
Essas tecnologias tornam possíveis quaisquer diagnósticos em qualquer
pessoa: artrite em pessoas sem dores nas juntas, úlcera em pessoas sem dores
no estômago e câncer de próstata em milhões de pessoas que, não fosse pelos
exames, viveriam da mesma forma e sem serem consideradas pacientes com
câncer.
Em segundo lugar, as regras estão mudando. Conselhos de especialistas,
constantemente, expandem os conceitos de doenças: todos os valores de
referência para o diagnóstico de diabete, hipertensão, osteoporose e
obesidade caíram nos últimos anos. O critério utilizado para considerar o
nível de colesterol normal despencou múltiplas vezes. Com estas mudanças,
doenças agora são diagnosticadas em mais da metade da população.
A maioria de nós acredita que estes diagnósticos adicionais sempre
beneficiam os pacientes. E alguns, de fato, são benéficos. Mas, por fim, a
lógica das detecções antecipadas é absurda. Se mais da metade de nós está
doente, o que significa estar 'normal'? Muitos de nós estamos predispostos –
e em algum dia podemos ficar doentes – e todos nós somos dos 'grupos de
risco'. A medicalização na vida cotidiana é muito problemática. O que,
exatamente, estamos fazendo com nossas crianças, uma vez que 40% das que vão
acampar estão sujeitas a uma ou mais prescrições crônicas de medicamentos?
Ninguém deveria adotar a conduta de transformar pessoas em pacientes, ainda
que sem gravidade. Isto gera grandes prejuízos. O fato de rotular pessoas
como doentes pode deixá-las ansiosas e vulneráveis, em especial as crianças.
Mas o principal problema é que a epidemia de diagnósticos conduz a uma
epidemia de tratamentos. Nem todos os tratamentos têm reais benefícios, mas
quase todos podem ter prejuízos. Algumas vezes os prejuízos são conhecidos,
no entanto, freqüentemente os prejuízos de algumas terapias levam anos para
serem descobertos, após muitas pessoas já terem sido expostas aos
malefícios.
Para pacientes com doenças severas, estes malefícios, geralmente, perdem a
importância diante dos potenciais benefícios. Mas para pacientes com
sintomas mais brandos os malefícios são muito mais relevantes. Além disso,
para pacientes rotulados como 'predispostos' ou de 'grupos de risco' que
estão destinados a permanecer saudáveis, o tratamento só pode causar
prejuízos.
A epidemia de diagnósticos tem muitas causas. Mais diagnósticos significa
mais dinheiro para a indústria farmacêutica, hospitais, médicos e advogados.
Pesquisadores e até mesmo organizações federais de medicina asseguram suas
posições (e financiamentos) promovendo a descoberta de 'suas' doenças.
Preocupações médico-legais também conduzem à epidemia. Se por um lado uma
falha no diagnóstico pode ser objeto de uma ação judicial, por outro não
existe qualquer punição para diagnósticos exacerbados. Além disso, o que os
clínicos menos têm dificuldade de fazer é diagnosticar desenfreadamente,
mesmo quando existem dúvidas de se diagnosticar, ou não, realmente vai
ajudar nossos pacientes.
Desta forma, quanto mais nos falam que estamos doentes, menos nos dizem que
estamos bem. As pessoas precisam ponderar sobre os riscos e benefícios da
ampliação de diagnósticos. A questão principal a ser enfrentada é sobre ser
ou não um paciente. E os médicos precisam relembrar do valor que tem ou não
um paciente. E os médicos precisam relembrar do valor que tem assegurar a
uma pessoa que ela não está doente. Talvez se devesse começar a estudar uma
nova medida de saúde: a proporção da população que não precisa de cuidados
médicos. E as instituições nacionais de saúde poderiam propor uma nova meta
para os pesquisadores: reduzir a demanda de serviços médicos, ao invés de
aumentá-la.
--
Sabina Vanderlei
http://br.groups.yahoo.com/group/Psi-cologica/
http://psi-cologica.4shared.com/
http://www.psicologiaviva.com.br/sabinavanderlei
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