JANEIRO BRANCO: MÊS DA SAÚDE MENTAL, SAÚDE MENTAL SEMPRE

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Falar de saúde mental é compreender que esta é, sem medo de ser audaciosa em minha posição, o território, o recurso natural, a tecnologia mais valiosa da existência que cabe ao ser humano explorar. Como ainda somos estrangeiros dentro de nós mesmos, apesar dos  importantes avanços que somos capazes de criar. 

As perspectivas de crescimento dos transtornos mentais e seus inegáveis danos à saúde e à produtividade por cada vez mais incapacitarem ao trabalho e ao desfrutar da vida, torna-se cada vez mais algo que não mais pode ser ignorado, daí a iniciativa de transformar o mês de Janeiro no mês da Saúde Mental -  JANEIRO BRANCO.

Em muitas ocasiões o PSICOLOGIA EM FOCO falou sobre o quanto se tornou insustentável manter a separação corpo e alma - O penso, logo existo de Descartes, somado a todos os pensadores que forjaram a estrutura e o funcionamento do Ocidente, tem se mostrado ineficaz ao longo dos anos para dar conta da comp…

O fala só






José Saramago

Hoje apesar do céu descoberto e do sol quente, não me sinto para festas. Há dias assim. E um homem não tem obrigação nenhuma de mostrar aqui um sorriso de boas vindas quando sabe quando ninguém está para chegar. Mais vale aceitar (ou assumir, como é inteligente dizer-se agora) as boas e as más horas do espírito, porque atrás de umas vêm outras e nada  está seguro, etc., etc. Desta fatalidade poderia até tirar matéria para a crônica, se mesmo agora me não estivesse passado na lembrança um homem mal enroupado que eu conheci tonto de seu juízo, o qual homem levava triste dia a andar para baixo e para cima na rua principal lá da aldeia. Chamavam-lhe evidentemente de o Tonho Mauco uma espécie de bobo fácil dos adultos e de besta sofredora das crianças. Estas coisas são assim e no fundo não é por mal, se o Tonho morresse toda a gente tinha um grande desgosto, pois claro.

Das malícias do tonto não falo: eram muitas e nem todas para por por escrito. Mas honestíssimas donas de sua casa irrompiam aos gritos e empurravam Tonho para fora dos quintais onde ele se introduzia silencioso e ágil com um gineto. Adiante. O que me impressionava então e hoje recordo era aquela cisma que o Tonho tinha de falar durante todo o santo dia, ora em altas vozes contra as portas e os prudentes habitantes que atrás se escondiam, ora em estranhos murmúrios com o rosto apoiado numa árvore, ora quase suspirando enquanto a água das bicas lhe iam correndo para a concha das mãos. Além dos seus outros nomes,apelidos e alcunhas o Tonho era o Fala-só.

Passaram prodigamente os anos, eu cresci, o Tonho envelheceu e morreu, e eu não morri, mas envelheci. Estas coisas também são assim e quando eu morrer as pessoas também vão ter muita pena. A ver.

Depois de eu ter crescido, soube que também aos poetas davam o nome de fala-só porque se achava que a poesia era uma forma de loucura nem sempre mansa, e porque alguns abusavam do privilégio de falar alto à lua ou de se lançarem a solilóquios mesmo quando em companhia. Bem sei que tudo isso vinha de uma noção incuravelmente romântica do que seja ser poeta e poesia. Mas as pessoas, vendo bem, gostam dos loucos, e, quando não os têm, inventam-nos.

Num mundo assim organizado todos tinham o seu lugar: loucos, poetas e sãos de espírito e todos estavam cientes dos seus direitos e obrigações.Ninguém se misturava. Mas decerto não era assim, porque havia sãos de espírito que passavam a loucos e a poetas, e começavam a falar sozinhos perdidos para a sociedade da gente normal. Um delgado fio é a fronteira e parte-se e gasta-se e é logo outro mundo.

Quero dizer na minha que estas crônicas são também dizeres de um fala-só. Que esta continuada comunicação tem qualquer coisa de insensato porque é uma voz cega lançada para um espaço imenso onde outras vozes monologam, e tudo é abafado por um silêncio espesso e mole, que nos rodeia e faz de cada um de nós  uma ilha de angústia. E isto é tão verdade, que o leitor vai interromper aqui mesmo a leitura, baixa o livro, levanta os olhos vagos e profere as palavras da sua dor ou da sua alegria, di-las em voz alta, a ver se o mundo o ouve e se, pela magia do esconjuro involuntário, começa a enfim compreendê-o, a si, leitor, a quem ninguém compreende e a quem ninguém ajuda.

De modo que fala-sós somo todos nós: os loucos, que começaram os poetas por gesto e imitação, e os outros, todos os outros, por causa desta comum solidão que nenhuma palavra é capaz de remediar e que tantas vezes agrava.

Fonte:  Livro A Bagagem do Viajante (crônicas) Edt Caminho,  Lisboa 2000.


Escolhi esta crônica pensando neste homem do comentado acontecimento na escola de Realengo. Não cabe aqui julgar suas atitudes, mas talvez refletir o quanto ele pode ter tentado falar e não ter sido ouvido... Há uma complexidade nestes fatos que ao invés de nos causar a natural repulsa pelo ocorrido, ouso olhar além e pensar em nós. 

Como para uns certos acontecimentos podem ser insignificantes e facilmente superados e para outros pode adquirir uma carga de sofrimento insuportável? É tênue. A mente humana é um terreno ainda inabitado em muitos aspectos; há o transtorno descrito e tratado pela ciência e há as experiências que nos afetam de modos diversos.
Regina Bomfim