Para ver um mito ao piano


O exigente Keith Jarret, famoso pelos improvisos, se apresenta amanhã* no Teatro Municipal

Eduardo Fradkin
*o concerto é hoje dia 9/04


Há alguns meses, o experiente  executivo da produtora de concerto Dell'Arte, Steffen Dauelsberg andou ligando para vários profissionais do meio musical, perguntando a cada um sua opinião sobre qual era o melhor piano disponível no Rio. A enquete visava determinar o instrumento perfeito para o americano Keith Jarrett, extremamente exigente quanto à sua ferramenta de trabalho. Três pianos foram colocados à disposição, para o recital ocorrerá amanhã às 21h, no Teatro Municipal.
- Ele pediu um piano Steinway em ótimas condições e terá três à sua escolha: um que pertence ao Teatro Municipal, um novíssimo que veio de Nova York para o porto de Vitória e me foi alugado, e outro de 2006, e outro, de 2005 de empresa Gluck, de São Paulo. Este foi tocado recentemente por Nelson Freire e recebeu sua aprovação. Keith tem um ouvido muito sensível. Na última vez que veio ao Brasil, em 1989, lembro que houve um episódio curioso num hotel em Salvador. Ele estava hospedado num chalé bastante afastado da sede. Nela, uma banda começou a fazer um show. Lá de longe, ele reclamou que estava incomodado pela frequência do baixo da banda - conta Dauelsberg.

No recital de amanhã (ingressos já esgotados), o pianista - que transita entre o mundo da música clássica e do jazz - fará improvisações, incluindo a releitura de standards.
- Ele grava todos os seus recitais, e o do  Rio não será diferente. Então é possível imaginar que, se ele estiver numa noite inspirada e fizer uma grande apresentação, isso poderá se converter num CD - comenta o produtor, que está providenciando caixinhas de balas para serem distribuidas ao público na entrada do teatro, com a sugestiva inscrição "É no silêncio que o artista encontra sua inspiração".

Em entrevista ao GLOBO, há duas semanas, Jarrett falou sobre a sua arte:
- **Tocar é como pular de um rochedo sem saber o que há lá embaixo: se é pedra ou se é água. E o público está lá faminto. Tocar é correr riscos, tem de ser perigoso.

obs**: Trouxe este texto especialmente por causa deste último parágrafo. É um assunto e tanto para se pensar e nisso me coloco... Quem teve o privilégio de conseguir um desses concorridos ingressos e estiver no Rio, escreva para contar, assim como quem já teve a oportunidade de assistir algum dos seus recitais pelo mundo. Não o conhecia. Só por este parágrafo em questão e o seu conceito no meio musical, deve ser um artista e um ser humano muito interessante. 

Fonte: Jornal O GLOBO - Caderno Rio Show 08/04

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