Psicotrópicos: proposta química para estados e oscilações de ânimo indesejados

*Por Marilene Cabral do Nascimento


Reunimos 86 reportagens sobre medicamentos psicotrópicos publicados em jornais e revistas de grande circulação entre 1974 e 1998. Deste total, 24% das reportagens infocaram antidepressivos, 20% os tranquilizantes, 15% destacaram os xaropes contra tosse que contêm substâncias psicoativas em suas fórmulas, enquanto 41% trataram o tema de uma maneira geral ou abordando vários grupos de psicotrópicos (a autora fez gráficos que não reproduzimos aqui por não saber como fazer). Quanto a abordagem dos benefícios e/ou riscos decorrentes do consumo de psicotrópicos observamos que 55%, do conjunto de reportagens pesquisadas destacaram os riscos, 13% os benefícios, 12% reservaram ênfase similar a benefícios e riscos, 10% não se posicionaram a respeito. E 10% das reportagens tematizaram a regulação governamental destes medicamentos.

Comentaremos a seguir as principais abordagens encontradas nestas reportagens sobre os medicamentos psicotrópicos e seu consumo na atualidade.


  • Distúrbios Biológicos

Os psicotrópicos são medicamentos que agem sobre o psiquismo humano, alterando o estado de ânimo das pessoas. De acordo com a substância utilizada, produzem ação calmante, estimulante, antidepressiva, antipsicótica, entre outras. A utilização dos psicotrópicos supõe a existência de distúbios biológicos por trás de problemas ou desordens psíquicas que podem ser tratadas com substâncias farmacológicas. Haverá um descontrole nas funções do cérebro, relacionadas a alterações químicas no organismo passíveis de serem corrigidas com medicamentos.

A importância dos aspectos biológicos na terapêutica das desordens mentais é defendida pelos integrantes do que se convencionou chamar de biopsiquiatria. As pesquisas na área recebem maciço apoio financeiro de grandes laboratórios farmacêuticos e do poderoso Instituto de Saúde Mental dos EUA, de onde partem a maioria das normas clínicas seguidas por psiquiatras do mundo inteiro.

Os primeiros psicotrópicos  entraram no mercado nos anos 1950, depois do final da Segunda Guerra Mundial em um período de grande expansão da indústria. Nas décadas que se seguem, observou-se um crescimento vertiginoso no consumo desses medicamentos. Eles passaram a ser utilizados não apenas por pacientes portadores de doença mental, mas também por donas de casa angustiadas e insatisfeitas, por executivos estressados, por adolescentes com suas inquietações e ansiedades, por idosos solitários e entediados. Recentemtente, observa-se um aumento na indicação médica destas substâncias também para crianças. Na maioria dos casos, os fármacos são receitados por clínicos.

Algumas hipóteses, se propõe explicar a banalização observada no consumo de psicotrópicos. Embora diferentes, como veremos a seguir, estas hipóteses expressam faces distintas de uma mesma questão múltipla e complexa. Revelam opções eleitas no contexto da cultura comtemporânea frente aos problemas humanos. Uma cultura em que a ciência, a tecnologia e o mercado ocupam lugar de destaque, muitas vezes prioritário, nos valores e nas crenças sociais.

Fonte: Vitaminas, analgésicos, antibióticos e psicotrópicos - Vantagens e perigos do uso de medicamentos  da indústria farmacêutica mais consumidos no Brasil - Marilene Cabral do Nascimento Ed Vieira e Lent/ RJ 2003.



Continuaremos na próxima postagem

* Este texto faz parte de um livro que fiz questão de trazer. Recomendamos a leitura do mesmo, pois  é um primoroso trabalho de pesquisa numa linguagem objetiva e competente. O assunto é bastante atual e faz parte das reflexões da psicologia que deseja um aproximação maior com as questões do mundo. Há um vasto capítulo do livro dedicado a este tipo de medicamento que  traremos aos  poucos.
Deixo registrado minha admiração ao trabalho da socióloga e professora  universitária Dra Marilene Cabral.

 


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