Beltrame adverte que UPPs estão numa encruzilhada

'Nada sobrevive só com segurança. É hora de investimentos sociais'.


Após a pacificação de 17* favelas cariocas, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, alerta que o sucesso do projeto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) depende agora de investimentos maciços na área social e cobra o envolvimento de empresas e orgãos públicos. Sempre discreto, Beltrame atualmente se mostra angustiado e um pouco aborrecido: " Nada sobrevive só com segurança. Não será um policial com um fuzil na entrada de uma favela que vai segurar, se lá dentro as coisas não funcionarem. É hora de investimentos sociais", disse o secretário a ELENILCE BOTTARI e LIANE GONÇALVES. Beltrame admite estar cansado de esperar investimentos, mas garante que não vai "jogar a toalha".

Entrevista: José Mariano Beltrame
Quase como um ritual de batismo, ao assumir a Secretaria de Segurança do Rio, em 10 de janeiro de 2007, o delegado José Mariano Beltrame ouviu de empresários e de representantes de orgãos públicos de todas as esferas de governo um conhecido discurso: o de que a falta de segurança e a presença de grupos armados impediam investimentos sociais nas favelas cariocas. Hoje, 17* UPPs depois e diante da expectativa de 300 mil moradores das favelas pacificadas, ávidos por dignidade, é a vez de Beltrame reclamar. Mostrando uma angústia incomum para um homem normalmente fechado e se dizendo chateado com a demora na chegada de investimentos sociais e de infraestrutura às comunidades, o secretário falou ao O GLOBO sobre os objetivos do programa das Unidades de Polícia Pacificadora, anunciou novas metas para o próximo triênio e alertou para o problema da falta de participação da sociedade na inclusão das favelas:
- Nada sobrevive só com segurança. Não será um policial com um fuzil na entrada de uma favela que vai segurar, se lá dentro das comunidades as coisas não funcionarem. É hora de investimentos sociais.

O GLOBO: Que balanço o senhor faz das UPPs?
JOSÉ MARIANO BELTRAME: Embora as UPPs estejam agradando, eu tenho meus temores em relação ao pós- UPP. Aquilo a que efetivamente a UPP se presta nada mais é que proporcionar, viabilizar e chegada da dignidade ao cidadão. Essa é a razão da existência da UPP: criar um terreno fértil para a geração de dignidade. É isso que vai garantir o projeto e não apenas a presença da polícia.

O senhor não acredita então que as UPPs estejam garantidas?
BELTRAME: Se não houver investimentos maciços na dignidade dos cidadãos, na geração de perspectivas para aquelas pessoas, não digo que o programa vai dar errado, mas não é a polícia que vai garantir o sucesso de tudo isso. A UPP criou um ambiente para a sociedade começar a pagar a dívida que todos temos com essas àreas até então excluídas.

O senhor sempre está percorrendo as UPPs. Sente-se o administrador do programa?
BELTRAME: A gente cuida do projeto como se fosse um filho. O melhor feedback é ouvir os moradores dessas comunidades. As reportagens sobre UPPs são ótimas, mas é ainda melhor ouvir das pessoas frases assim: "secretário meu netinho vai fazer 2 anos. o senhor acredita que até agora ele não ouviu um só tiro?"

Que critérios têm de ser definidos para garantir o sucesso do projeto?
BELTRAME: Talvez a garantia de que essas comunidades vão passar a contar com luz, sistema de esgoto e água, além de coleta de lixo. O sucesso do projeto depende de investimentos maciços, e estes não estão sendo feitos na velocidade necessária.

O senhor se sente responsável pelas 300 mil pessoas beneficiadas diretamente pela pacificação. Isso lhe tira o sono?
BELTRAME: Isso me preocupa. A UPP mexe com o que há de mais valioso nas pessoas, que é a esperança. E a gente precisa ter senso de responsabilidade. Essas pessoas, com a chegada da polícia, podem começar a pensar que agora o Estado está presente ali. E esse Estado tem que se apresentar de forma mais palpável, de um jeito forte. É algo que me preocupa porque a gente está mexendo com o imaginário das pessoas. Isso não é brincadeira.

O senhor vive a angústia dessas pessoas que esperam por melhorias?
BELTRAME: Vivo. Eu vivo essa angústia. Vou lá nas comunidades e saio mal com certas coisas que vejo. Mas também saio muito gratificado por outras coisas, como o depoimento daquela avó a que me referi antes.

Essa falta de perspectiva prejudica seu trabalho?
BELTRAME: Eu acho que sim, porque as pessoas passam a ver na construção da esperança aquele homem fardado. E só. É naquele que as pessoas vão. Então começam a perguntar ao capitão por serviços que são da Cedae, da Light, da CET-Rio. Hoje, por exemplo, eu tenho policiais que, mesmo estando de serviço, dão aula de esportes. Eu apoio essa iniciativa, porque não vou deixar as crianças sem esporte. Mas gostaria que o responsável por esse setor assumisse essa tarefa, me liberando dois ou três policiais para exercerem a sua função.

Mas o senhor não conta com a parceria de empresários?
BELTRAME: Tenho grandes parceiros como a OGX, do Eike Batista, tenho a Firjan e a Light. As suas ações são visíveis nessas comunidades. Eu posso estar cometendo uma injustiça, mas agora tudo é Complexo do Alemão, onde não há UPP*. Eu gostaria que tudo que está acontecendo no Alemão ocorresse nas comunidades com UPPs na Tijuca e outros bairros. Mas foi tudo para o Alemão. Até banco já abriram lá. Poderiam abrir no Morro dos Macacos, no Salgueiro.

O senhor pede ajuda ao governador Sérgio Cabral, reclama com ele?
BELTRAME: Peço, reclamo. O governador liga para essas pessoas, para os secretários, é um parceiro meu.

Na UPP Social, o que o senhor considera mais urgente?
BELTRAME: Eu não gosto do nome UPP Social. UPP é UPP. Falaram em alguma entrevista e colou, mas sou contra, porque a UPP não é social, ela proporciona o social, permite que o social aconteça. Além disso, se a UPP Social começar a não acontecer, pode me levar junto. E eu não quero isso.

O senhor teme pela sobrevivência do projeto se não houver a participação de outros setores?
BELTRAME: Eu acho que nada sobrevive só com segurança. Não será um policial com um fuzil na entrada de uma favela que vai segurar, se lá dentro das comunidades as coisas não funcionarem. É hora de investimentos sociais. Quando me pergunto o que podem fazer, eu digo: vá lá e veja. Pode entrar, pode visitar. Uma pessoa sozinha talvez não consiga fazer muito, mas se houver outras... Posso estar enganado, mas acho que o ambiente que nós temos hoje permite que a gente pense grande.

Em algum momento o senhor pensou em abandonar o cargo?
BELTRAME: Nunca pensei, a gente tem proposta. Eu achava que no fim do ano era o momento em que poderíamos sair. Digo poderíamos porque não estou sozinho. Isso talvez fosse bom pra mim, José Mariano. Mas temos projetos. Sair seria uma coisa egoísta. Não vou jogar a toalha. Eu brigo muito, mas isso desgasta.

O Estado não poderia dar incentivos a empresas que quisessem investir maciçamente nas comunidades?
BELTRAME: Acho que você precisa perguntar isso ao Villela (o secretário estadual de Fazenda, Renato Villela). Acho que já viram o resultado da política de segurança na saúde pública. Na medida em que as pessoas dão menos tiros, há menos mortos e menos feridos (atendidos nas emergências dos hospitais). A rede hoteleira às vezes me acena, dizendo que o resultado é fantástico.

O senhor acha então que, se a prefeitura ou os empresários não colaborarem, o projeto das UPPs ficará capenga?
BELTRAME: O que eu quero é fomentar o programa, para que ele decole definitivamente. Acho que quanto menos dignidade tiver o cidadão, mais difícil será. Você pode fazer um cinturão de policiais para manter a ordem, mas também não é isso que a sociedade quer.

E a vida pessoal como fica?
BELTRAME: Eu não tenho tempo para eles (mulher e filhos). Hoje, o meu programa preferido, que já é difícil, é ficar em casa dormindo. Mas fico muito feliz de ir à rua e as pessoas me cumprimentarem. Eu sou muito agradecido.

Quais as próximas metas?
BELTRAME: Trabalhar firme em cima dos desvios de conduta, da corrupção. Investir ainda em tecnologia, educação e capacitação que são tão difíceis. Estudar como realizar ocupações como a do Alemão, como fazer UPPs. E abri os currículos,  ver quem são os professores, rever com eles disciplina por disciplina. Vamos rever tudo, os cursos de formação de praças, de oficiais, delegados, de inspetores.

Até alguns anos atrás, a polícia pagava a informantes com materiais apreendidos em operações. Essa polícia está mudando?
BELTRAME: Talvez esse não seja um trabalho para um secretário. Mas nesse sentido as UPPs também me empolgam. Durante mais de 40 anos, nossas polícia era de entrar e sair das comunidades, com três faccções criminosas brigando entre si e com a polícia. E o que aconteceu? Acabamos tendo, ao longo de décadas, uma polícia para fazer guerra e não para prestar serviços. Agora nós já temos um polícia prestadora de serviços.

Fonte: Jornal O GLOBO, Primeiro Caderno RIO pág 18 (29/05/2011)

Obs: *Pelo tempo da matéria, ocorreram modificações nos números. Além da entrevista também havia a exibição de estatísticas que, pelo mesmo motivo, optamos por não registrar. Os interessados em obter as informações na íntegra consultar o site www.oglobo.com.br.

O secretário de Segurança acenou com uma questão muito importante que pouco tem sido discutida que é a contrapartida social que deve estar acompanhada das iniciativas inegavelmente positivas das UPPs. Isso muito pouco é falado. Será que isto nos diz respeito como pessoas que não habitam nestes locais? Será que apenas é satisfatório não ter mais os tiros ouvidos de quem mora perto destes locais? As pessoas que moram nestes locais costumam achar ótimo ter as UPPs na sua comunidade, mas será que  não desejam mais? Tantas noticias permanecem algum tempo em destaque e depois caem no esquecimento.  


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