Um exercício: em quem ou no que confiar?




Esta música do Djavan em parceria com Gabriel o Pensador chama-se  A Carta e faz parte do CD Bicho Solto XVIII (1998). Foi uma música desconhecida de um CD que já esteve presente num de meus antigos posts, mas pela força da canção, resolvi trazê-la novamente com um novo olhar, pois a mesma me tocou de um modo diferente e percebi que ela pode servir de base para pensar sobre este delicado caminho do meio entre a preocupação excessiva em ser perfeito e a ação que busca estar presente, preparado no que faz, mas com a leveza de fazer o melhor apenas sem se preocupar tanto com o resultado. Foi uma música desconhecida de um CD que teve o sucesso "eu te devoro". Adoro Djavan, tenho o CD e vê- lo cantando rap, se permitindo a usar uma forma diferente de cantar que estava habituado e juntando-se ao jovem Gabriel o Pensador com esta letra incrível, foi lindo.Esta canção continua evocando para mim questões bem atuais.

É visível o quanto o mundo avançou trazendo mais conhecimento, conforto para nossas vidas. Usufruimos da técnica e ao mesmo tempo  temos a idéia de que esta mesma técnica vai dar conta daquilo que somos de mais singular - o mundo avançou para fora, mas continuamos perplexos por dentro, assustados com o que surge em nós e fora de nós, o que diverge dessa praticidade e promessa de felicidade que toda essa modernidade, que é positiva nos promete.

Técnica é uma palavra que vem da grego téchné. Na definição grega, ela pode representar tanto a criação de artefatos como qualquer outra expressão criativa humana porque se relaciona ao método de realização de objetivos, ou seja na perpectiva originária grega,  téchné nem sempre a natureza precisa ser vista todo tempo todo tempo como um recurso a ser explorado, controlado.

Quando você vai fazer alguma coisa, costuma como diz a canção "confiar no seu critério" ou no que as pessoas dizem que é o melhor para você? Confiar naquilo que sentimos de mais verdadeiro, no nosso critério de julgamento das coisas, pode nos levar a acertos e erros, mas é daí? O acerto ou o erro é seu ou do outro? Quem deve estabelecer suas metas, você ou o outro?  Existe dentro de nós e no mundo que nos rodeia uma infinidade de possibilidades que apenas esperam a nossa exploração.

Ir percebendo que o tal do rigor que colocamos, da perfeição que perseguimos podem acabar sendo "armaduras" capazes de deixar o nosso caminhar mais arrastado. A gente pensa que pode controlar tudo. Dá pra sentir que tem uma coisa que se move à nossa revelia em tudo pois nem o nosso corpo controlamos...

Ana Maria Feijoo num capítulo do livro Psicologia Fenomenológico Existencial, faz um interessante paralelo entre o potencial humano e o ser sempre aberto a possibilidades no ato de existir, que é  um dos eixos principais desta abordagem que dá título ao livro, dizendo que acreditar no potencial humano é característico do mundo técnico em que a natureza é sempre tomada como algo a ser utilizado, controlado. Deste modo, a essência do homem acaba em certos momentos se confundindo com a essência da técnica.O filósofo Martin Heidegger em sua obra Ser e Tempo estudando sobre o ser do homem que se perdeu na modernidade, diz que não se trata de abandonar os recursos tecnológicos, mas refletir sobre seus efeitos e dizer "sim ou não" à utilização destes recursos.

Bibliografia
Angerami- Camon (Org.) - Psicologia Fenomenológica Existencial, São Paulo editora Thomson 2003
Heidegger Martin - O Ser e Tempo (3 volumes). Petrópolis Editora Vozes 1990

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