O mal - estar na 'cultura somática'
Maria Cristina Franco Ferraz - Professora titular de Teoria de Comunicação da UFF e autora de "Homo deletabilis: corpo, percepção e esquecimento do século XIX ao XXI", entre outros livros.
Desde os anos 1990, alguns autores têm assinalado certa alteração no modo de se produzir a subjetividade nas sociedades liberais avançadas. Isso não implica que um modo de construir o "eu" tenha se esgotado, em favor de outro. O que se pode verificar são tendências de transformação em andamento.
Como mostrou Foulcault, a configuração do sujeito moderno esteve ligada à crença em uma interioridade a ser examinada, na qual se aninhava sua verdade mais profunda e autêntica, associada à intância do desejo. A tensão constante entre a força da sexualidade e poderosas pressões sociais se expressava no modo como os conflitos eram vividos e elaborados em narrativas, bem como em novas ciências humanas emergentes na virada do século XIX para o XX, especialmente na psicanálise.
Na passagem do século XX ao século XXI, observa-se um deslocamento da relevância teórica atribuída à psicologia para uma ênfase crescente na biologia sobretudo nos genes, no cérebro e seus moduladores. Quem de nós leigos, relcionava há 15 anos, o termo "endorfina" ao bem-estar após exercícios; "serotonina" ao cansaço e à falta de vontade (cada vez mais remetidos à categoria expandida da "depressão"); "ritalina" à superexcitação dos corpos e a seu correlato, a hiperfragmentação dispersiva da atenção?
Em nosso século, expande-se certa "cultura somática", também no vocabulário cotidiano, como ba expressão "cinema-adrenalina". Não é que tenhamos nos tornado mais "científicos"; nem que ciência tenha afinal desvendado os enigmas do fenômeno humano. O que está em jogo é a disseminação de certas tendências culturais, efeitos de superfície que que exprimem mudanças em curso, mas que também as consolidam, mesmo (e sobretudo sem que percebamos).
Os avanços das pesquisas neurocientíficas impulsionam a cultura somática. A atual tecnociência move-se rumo à ultrapassagem do chamado "erro de Descartes" título de um conhecido livro do neurocientista Antônio Damásio. Esse "erro" consistiria na compreensão do humano baseada em dualismos emperdernidos: a cisão entre o corpo e algo que não seria corpo - quer se denomine alma, espírito, mente. Trata-se de um importante desafio epistemológico que estamos longe de colocar em questão. O problema é que a tentativa de ultrapassagem dos dualismos (há vários, nem todos equivalentes) exige a mudança radical do próprio conceito de "corpo", sob pena de se manter tributária do "erro" que pretende corrigir.
O avanço das neurociências se inscreve tanto nesse movimento de naturalização do humano quanto nesse impasse. Trata-se de um campo heterogêneo, com tensões e discordâncias. O que nos interessa é investigar de que modo estas supostas "descobertas" invadem o imaginário e o horizonte dos sentidos da cultura contemporânea, redefinindo nossos "roteiros de subjetivação".
A expressão "cultura somática" remete a novas crenças (e mitologias) acerca do fenômeno humano . cada vez mais o bem- estar e mal-estar são atribuídos ao funcionamento do cérebro, à bioquímica do corpo. A presença de neurocientistas em programas de TV, explicando a memória dos afetos, reforçam crenças que se popularizam, introduzindo-se no modo de entender a si mesmo e aos outros. Não se trata de lamentar tal mudança, supondo que a subjetividade moderna era mais "autêntica" ou "melhor". Importa discutir as implicações de certas crenças (respaldadas pela ciência) e avaliar os modos de vida que implicam.
Quando o mal-estar é atribuído a funções cerebrais e à bioquímmica do corpo, em vez de suscitar reflexão sobre a vida que está se levando e sobre o mundo que se vive, tende-se a regular o corpo, adaptando- o às exigências de um tipo de vida ligado a valores e pressões produtivistas, à hiperaceleração própria ao capitalismo turbinado. a somatização do "eu", disseminada midiaticamente, produz novas "verdades" assumidas de modo irrefletido, na medida em que são caucionadas pelas neurociências e ancorados no poder de persuasão permitido pelas tecnologias de imagem cerebral,
O avanço das neurociências, incrementado por vultorsoa aportes financeiros e articulado a interesses de indústria farmacêutica, triunfantemente propalado pela mídia, produz novos horizontes de sentido que vão sendo incorporados. O que não é de se estranhar, na medida em que tem a seu favor dois fortes meios de legitimação: a crença na ciência (campo da verdade que restou, após o esvaziamento da transcendência) e o apelo inegável das imagens do "interior" do corpo. Um "interior" não mais habitado pelo psíquico mais material, passível de ser "traduzido" na imaterialidade de bits, tratados como dados algorítimicos e transformados em informação.
O sociólogo inglês Nikolas Rose nota que muitos trabalhos publicados por neurocientistas são perpassados por um tom triunfante e persuasivo. Nesses artigos, expressa-se uma retórica do "ainda não" com ênfase em promessas a serem cumpridas, em futuras descobertas de sua aplicabilidade, como meio de garantir o aporte das somas estratosféricas necessárias a pesquisas e à manutensão de laboratórios.
Como efeitos de superfície, a política pró-cérebro e os interesses envolvidos nas pesquisas exprimem transformações históricas em curso, mas também simultaneamente, funcionam como instrumentos produtores dessas mudanças. Avancemos na investigação dos modos de vida implicados nessa ênfase crescente no cérebro, nos hormônio e genes.
Lembremos o que Walter Benjamin destacava na década de 1930: a falência, identificada por ele na vida moderna, da esfera da experiência vivida e transmissível. O tema benjaminiano do ocaso do narrador já apontava para o declínio do sujeito da fala, para a violência de traumas incomunicáveis. Quando o mau-estar é reduzido ao mal funcionamento da materialidade do corpo, o sujeito apto a narrar suas experiências e a elaborar traumas e lutos se emudece ainda mais.
A tendência de redução de todo o campo do vivdo à atividade cerebral espetacularizada em neuroimagens, dispensando a narração, pode ser remetida ao aumento exponencial de situações traumáticas (das guerras ao cotidiano nos centros urbanos) e a certo esvaziamento da potência transformadora da ação política, ancorada na fala humana e no compartilhamento de experiências.
Exemplos expressivos das transformações do "eu" e da "interioridade" na cultura somática são facilmente encontrados. Lembremos uma exposição que correu o mundo e esteve no Brasil 2008 e 2009: Corpo Humano - real e fascinante". eis como ela foi divulgada em jornais e outdoors: "Você tem um encontro marcado com o seu interior". Nesse slogan, está expressa uma nova prepectiva acerca do que seria um encontro consigo mesmo e, sobretudo, do que consistiria nosso verdadeiro "interior".
Na exposição, corpos reais, cadáveres chineses plastificados, exibem seu verdadeiro "interior": orgãos, visceras, fina rede de veias e artérias, ossos, músculos, mas também próteses - rasurando a velha dicotomia natural/artificial. O corpo morto é fragmentado, purificado de odores, de sua temporalidade orgânica, de sua natural tendência à putrefação. Mas também de qualqer narrativa, história ou ancoragem política-social. Ressecado desencarnado e digitalizado, esse corpo serve como suporte didático para a vulgarização científica e para a incitação a um "cuidado de si" norteado por hábitos saudáveis. Eis uma das faces do que podemos chamar de moral somática.
É difícil atribuir o fascínio exercido pelo cérebro a fatores isolados. Creio ter deixado algumas pistas a serem aprofundadas. Certamente imagens do cérebro irão nos acompanhar com seu fascínio em tons néon, ao longo deste século.
Fonte: Jornal O Globo - Caderno Prosa e Verso p. 1 e 2 (10/12/11)

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