Sobre o saber e o prazer



Considero este texto forte, por trazer reflexões sem meias palavras de uma questão bem atual. A psicologia há poucos séculos passou pela transição de filosofia para ciência. A finalidade deste blog é acolher as idéias presentes no mundo, trazendo vários ângulos, o que não isenta de pensar sobre a prática psicológica neste contexto trazido pelo autor. Importante sempre revermos as nossas práticas para termos a clareza de a quem estamos servindo,nos colocando sempre no excercício de não acolher irrefletidamente tudo que nos chega. Além de contribuir para a melhoria da condição humana, devemos problematizar, propor novos olhares e significados sobre os fenômenos do mundo que nos afetam.


Rubem Alves - Estórias de quem gosta de ensinar. 11a edição - Edt Cortez 1987 (Coleção Polêmicas do nosso tempo 9)


Ah! nada mais puro e honesto quanto a dor e o prazer. É que aí o corpo fala sua linguagem mais profunda, universal e irrefutável. Pascal me permitindo, direi numa paródia. "O corpo tem razões que a própria razão desconhece..." Que metafísica invocar contra uma cólica renal ou uma ridícula dor de dentes? Que razões apresentar contra o prazer do sono ou das evidências do orgasmo? Nietzsche agiu com acerto: batizou o corpo com o nome de Grande Razão, por oposição àquela razão pequena e acessória, que parece residir dentro da caixa craniana...


Lembrei-me de Galileu. Claro que a igreja não pode ser absorvida daquilo que ela lhe fez.. Mas, não se pode negar, por outro lado, que no final ela acabou por reencontrar a verdade. Pode ser que, no mundo abstrato dos que vivem em laboratórios - longe da fome, dos campos de batalha, dos navios que afundam, das câmaras de tortura -, lugar onde o sofrimento não conta e só há assépticas equações matemáticas frias e indiferentes, sim, pode ser  o Sol seja o centro em torno do qual giramos. Mas quando Galileu, o homem Galileu, carne e osso, anteviu seu corpo em sofrimento, voltou-lhe a razão de quem quer viver, distante e diferente da razão dos que só pensam:  é em volta do corpo que giram todos os sóis e planetas, em volta do corpo gira o Universo inteiro. Na verdade, quando a dor e o prazer estão em jogo e o corpo se dependura sobre o abismo, saber se o sol gira em torno da Terra ou a Terra gira em torno do Sol nada mais é que uma questão fútil.


E por que não deveria ser assim? A inteligência é filha do corpo, é função do corpo. Volta-me a sabedoria visceral de Neitzsche: "Um instrumento do seu corpo é também a sua pequena razão, meu irmão, a que dá o nome de 'espírito' - um pequeno instrumento e um brinquedo da sua Grande Razão..."


De fato, nada melhor que a dor de nos fazer recuperar o sentido das coisas que importam. Até a Nona Sinfonia fica diferente quando se está sofrendo de uma nevralgia do trigêmeo. Contaram-me de um indivíduo que perfurado por esta dor que não passava, acabou por cometer o suicídio. Por amor ao corpo, a anestesia definitiva. Que convulsão cósmica acontece quando se descobre que em algum lugar invisível deste corpo se encontra um bicho que acabará por devorá-lo...
Que outra função o corpo poderia atribuir à inteligência, ferramente e brinquedo, diferente de aumentar o prazer e diminuir a dor?


" O corpo diz para o seu eu: 'Sinta dor aqui!' Então o eu sofre e pensa em como parar de sofrer- e é isto que o faz pensar. O corpo diz para o seu eu: 'Sinta prazer aqui!' Então seu eu sente prazer e pensa no que fazer para ter de novo o prazer - e é isso que o faz pensar..." (Nietzsche).


Na verdade, parece que o pensamento surge com a dor. Para o pensamento, o estômago começa a existir no momento em que a azia aparece...quando tudo vai bem não pensamos sobre as coisas: nós a usufruimos. Fernando Pessoa estava certo: "Pensar é estar doente dos olhos". eu acrescentaria: doente do corpo inteiro. O deus da inteligência é o corpo. Sua única função é fazê-lo sobreviver, sobreviver com um sorriso...


Assim, a inteligência e qualquer Ciência que ela venha produzir, só podem ser avaliadas em função da sua relação com a vida. Os corpos fcam mais felizes? Suas possibilidades de sobrevivência como indivíduos e como espécie aumenta? Vejo os tubarões. Que sabedoria se encontra alojada de forma silenciosa e tranquila em seus corpos. Já me disseram há quantos milhões de anos existem. Me esqueci. Era muito tempo. Seremos tão sábios? Acreditamos que somos muito mais... Até nos batizamos do Homo Sapiens - título de nobreza e presunção. No fundo afirmamos que as outras espécies padecem de certa estupidez: não escrevem livros nem fazem bombas. Tenho dúvidas. Tubarões, besouros, lagartixas, formigas... todos eles carregam em silêncio nos seus corpos, uma sabedoria, toda ela a serviço da sua sobrevivência...
A situação do Homo Sapiens parece ser distinta. Ele é o único bicho em que o aumento do saber implica também num aumento das possibilidades de sua própria extinção. Que dizer de uma serpente que produz um veneno tão mortífero que ela mesma morre, pelo simples contato do líquido com a sua boca? Ou de uma borboleta que desenvolve asas tão enormes que não tem forças para batê-las? O corpo endoideceu. Fez uma coisa que decreta a sua morte. A borboleta, se pudesse falar, preferiria asas bem pequenas. E a cobra iria ao dentista pedindo que se lhe arrancassem as presas. É mais arriscado andar com o veneno dentro da boca que ser comida por um gavião... Me parece que o Homo Sapiens não se comove com tais argumentos. O que indica que sua sabedoria é temperada por aguda dose de estupidez. O "progresso da Ciência" avança sem parar, ao sabor dos estímulos econômicos e militares. Mas não se pergunta se isso faz bem à vida. Via de regra a culpa é jogada sobre os políticos, que saem de tudo isso como os únicos vilões. a Ciência e a sua lógica continuam no pedestal...


Mas haverá coisa mais importante que o corpo? todas as revoluções, todas as ordens sociais, quaisquer que sejam suas enrolações ideológicas, não devem ter como única finalidade, fazer com que os corpos vivam, vivam mais felizes?


Ás vezes penso que a Ciência se comporta como uma prostitua que reza silenciosamente, enquanto o outro faz aquilo para que pagou. Com a reza, que na Teologia da Ciência tem o nome rigor metodológico, preserva-se a pureza do saber. Claro que as intenções são boas... Mas isto não altera o desfecho. O orgasmo é sempre daqueles que podem pagar a conta. Seria bom que a prostituta parasse com suas rezas e se convertesse ao saber puro, saber pelo saber, aos sorrisos das crianças e à sobrevivência da vida. Afinal, se um pouco de inteligência nos sobra, temos de gritar, com Brecht, que "a única finalidade da Ciência é aliviar a miséria da condição humana".

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