JANEIRO BRANCO: MÊS DA SAÚDE MENTAL, SAÚDE MENTAL SEMPRE

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Falar de saúde mental é compreender que esta é, sem medo de ser audaciosa em minha posição, o território, o recurso natural, a tecnologia mais valiosa da existência que cabe ao ser humano explorar. Como ainda somos estrangeiros dentro de nós mesmos, apesar dos  importantes avanços que somos capazes de criar. 

As perspectivas de crescimento dos transtornos mentais e seus inegáveis danos à saúde e à produtividade por cada vez mais incapacitarem ao trabalho e ao desfrutar da vida, torna-se cada vez mais algo que não mais pode ser ignorado, daí a iniciativa de transformar o mês de Janeiro no mês da Saúde Mental -  JANEIRO BRANCO.

Em muitas ocasiões o PSICOLOGIA EM FOCO falou sobre o quanto se tornou insustentável manter a separação corpo e alma - O penso, logo existo de Descartes, somado a todos os pensadores que forjaram a estrutura e o funcionamento do Ocidente, tem se mostrado ineficaz ao longo dos anos para dar conta da comp…







Sexo e Intimidade

Cláudia Mele - Atriz e dramaturga do espetáculo "Antes que você me toque", em cartaz na boate 2A2


A indústria voltada para as alegrias e prazeres do sexo é uma das mais poderosas e rentáveis do mundo. O domínio sex.com, por exemplo, foi vendido por US$ 13 milhões e hoje é o mais caro da História. Vivemos um momento com apelos sexuais em todos os meios de comunicação e homens e mulheres colecionando um número cada vez maior de parceiros. Nunca falamos e vivemos tanto o sexo! Que liberdade! No entanto, mais da metade da população tem algum tipo de disfunção sexual, e a grande maioria corre, desesperadamente atrás de um grande amor. O que esá acontecendo?

Enquanto pesquisadores ingleses e franceses discutem se o ponto G existe ou não, nos perguntamos onde está o nosso prazer. Alguns se apressam em dizer que está na nossa cabeça. Por que até hoje cientistas não conseguem descobrir traços fisiológicos que comprovem a existência desse tão falado e tão pouco percebido ponto G? Por que até hoje a ejaculação feminina é um mito? Por que um grande número de solteiros não consegue ter mais de duas relações com a mesma pessoa? Por que garotos de 20 anos tomam remédio para disfunção erétil pretendendo aumentar suas performances sexuais? Até que ponto nos permitimos ser verdadeiramente íntimos de alguém? O que de fato podemos com o nosso próprio corpo? Onde está o nosso afeto?

Estamos vivendo um período compensatório dos séculos de repressão do corpo. O boom da revolução sexual dos anos 60 e da invenção da pílula é recente na nossa história. Mulheres e homens tentam se acertar nessa nova forma de ver o corpo. Passamos da total repressão dos anos 50, em que a mulher não podia ter prazer, orgasmos ou desejos, para a pornografia, em que os corpos se encontram, mas não se reconhecem, e a busca do prazer se tornou obssesiva e superficial.

Na moderna sociedade midiática, a performance sexual é sinônimo de prestígio. Mais e mais queremos consumir sexo como uma estratégia de nos tornarmos indivíduos mais potentes. As capas de revistas estão repletas de mulheres praticamente nuas, mas com seus seios siliconados querendo vender a imagem da mulher moderna, bonita, feliz e saudável. corpos musculosos, Viagras e experimentos para aumentar o tamanho do pênis fazem parte, cada vez mais do cotidiano do homem contemporâneo. Não importa de fato o que sentimos, mas o que parecemos ser.

Há tempos estamos obcecados. Obcecados talvez porque durante séculos ou milênios aprendemos que não deveríamos exercer toda a nossa potência seuxal. Deveríamos nos livrar disso. e como podemos nos livrar de algo que é a nossa raiz? Talvez por isso hoje precisamos vomitar toda essa interdição. A casa de swing é um dos lugares que representam a exacerbação do sexo no mundo contemporâneo. Quando há milênios, o sexo foi banido do sagrado, começaram a se criar ordens secretas para que o exercício do sexo, ainda vinculado à espiritualidade pudesse ser praticado. Mas com o correr da história, com a espiritualidade cada vez mais marginalizada da sociedade, da política e da filosofia, essas ordens secretas foram se transformando. Dizem que as casa de swing são resquícios desses rituais que perderam sua essência espiritual. Para muitos, o tantra hoje é sinÔnimo de pornografia.

Estamos obcecados e, talvez por isso, ainda temos medo de falar sobre essas questões. Talvez por isso podemos sair e transar com quem for, mas temos medo de olhar no olho, medo da intimidade. Até que ponto perdemos a capacidade de sermos de fato afetados pelo outro?

 
Fonte: Revista - Jornal O Globo (22/04/2012)

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