Sexo e Intimidade

Cláudia Mele - Atriz e dramaturga do espetáculo "Antes que você me toque", em cartaz na boate 2A2


A indústria voltada para as alegrias e prazeres do sexo é uma das mais poderosas e rentáveis do mundo. O domínio sex.com, por exemplo, foi vendido por US$ 13 milhões e hoje é o mais caro da História. Vivemos um momento com apelos sexuais em todos os meios de comunicação e homens e mulheres colecionando um número cada vez maior de parceiros. Nunca falamos e vivemos tanto o sexo! Que liberdade! No entanto, mais da metade da população tem algum tipo de disfunção sexual, e a grande maioria corre, desesperadamente atrás de um grande amor. O que esá acontecendo?

Enquanto pesquisadores ingleses e franceses discutem se o ponto G existe ou não, nos perguntamos onde está o nosso prazer. Alguns se apressam em dizer que está na nossa cabeça. Por que até hoje cientistas não conseguem descobrir traços fisiológicos que comprovem a existência desse tão falado e tão pouco percebido ponto G? Por que até hoje a ejaculação feminina é um mito? Por que um grande número de solteiros não consegue ter mais de duas relações com a mesma pessoa? Por que garotos de 20 anos tomam remédio para disfunção erétil pretendendo aumentar suas performances sexuais? Até que ponto nos permitimos ser verdadeiramente íntimos de alguém? O que de fato podemos com o nosso próprio corpo? Onde está o nosso afeto?

Estamos vivendo um período compensatório dos séculos de repressão do corpo. O boom da revolução sexual dos anos 60 e da invenção da pílula é recente na nossa história. Mulheres e homens tentam se acertar nessa nova forma de ver o corpo. Passamos da total repressão dos anos 50, em que a mulher não podia ter prazer, orgasmos ou desejos, para a pornografia, em que os corpos se encontram, mas não se reconhecem, e a busca do prazer se tornou obssesiva e superficial.

Na moderna sociedade midiática, a performance sexual é sinônimo de prestígio. Mais e mais queremos consumir sexo como uma estratégia de nos tornarmos indivíduos mais potentes. As capas de revistas estão repletas de mulheres praticamente nuas, mas com seus seios siliconados querendo vender a imagem da mulher moderna, bonita, feliz e saudável. corpos musculosos, Viagras e experimentos para aumentar o tamanho do pênis fazem parte, cada vez mais do cotidiano do homem contemporâneo. Não importa de fato o que sentimos, mas o que parecemos ser.

Há tempos estamos obcecados. Obcecados talvez porque durante séculos ou milênios aprendemos que não deveríamos exercer toda a nossa potência seuxal. Deveríamos nos livrar disso. e como podemos nos livrar de algo que é a nossa raiz? Talvez por isso hoje precisamos vomitar toda essa interdição. A casa de swing é um dos lugares que representam a exacerbação do sexo no mundo contemporâneo. Quando há milênios, o sexo foi banido do sagrado, começaram a se criar ordens secretas para que o exercício do sexo, ainda vinculado à espiritualidade pudesse ser praticado. Mas com o correr da história, com a espiritualidade cada vez mais marginalizada da sociedade, da política e da filosofia, essas ordens secretas foram se transformando. Dizem que as casa de swing são resquícios desses rituais que perderam sua essência espiritual. Para muitos, o tantra hoje é sinÔnimo de pornografia.

Estamos obcecados e, talvez por isso, ainda temos medo de falar sobre essas questões. Talvez por isso podemos sair e transar com quem for, mas temos medo de olhar no olho, medo da intimidade. Até que ponto perdemos a capacidade de sermos de fato afetados pelo outro?

 
Fonte: Revista - Jornal O Globo (22/04/2012)

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