TRÁFICO DE PESSOAS






Por Mauro Ventura
Fonte: Revista - Jornal O Globo (30/09)


A próxima novela das nove vai falar de tráfico de seres humanos. Em "Salve Jorge", de Glória Perez, que estréia dia 22, Morena (Nanda Costa), moradora do Complexo do Alemão, vai trabalhar como garçonete na Turquia, atraída pela oferta de uma mulher sofisticada, mas é obrigada a se prostituir numa boate, em condições desumanas. Quatro outras personagens serão traficadas para a Europa: Jessica (Carolina Diekmann), Sheila (Luci Ramos), Rosângela (Paloma Bernardi) e Valeska (Laryssa Dias). A trama não teria sido possível  sem a ajuda de Jaqueline Leite. Gaúcha, 51 anos ela criou em 1994 o Centro Comunitário de Apoio a Mulher (Chame, em Salvador, referência brasileira no assinto. Jaqueline foi para Viena (Áustria), em 1984, com a filha pequena, acompanhar o então marido músico. Deus aula de português, cantou na noite, foi guia de turismo, fez faxina. Conheceu uma suíça que trabalhava em Zurique numa ONG de ajuda a vítimas do tráfico humano e passou a traduzir panfletos. "Mas percebi que quando as mulheres já estão lá não há muito o que fazer. Faltava um trabalho de prevenção no Brasil.", diz ela, que colabora com Glória e com a pesquisadora Julia Laks. A novela vai mostrar um balé dela e Rita Serpa, do projeto Luar da Dança, com bailarinas do Alemão, para ajudar a prevenir o tráfico de meninas.


REVISTA O GLOBO: Como funciona o tráfico de seres humanos?
Jaqueline Leite: Existem três grandes tipos: para exploração sexual, trabalho doméstico e casamento servil, quando é quando a mulher é obrigada a viver a serviço do marido. quem comanda o esquema é o traficante, que tem o seu QG na Europa. Ele não parece gângster, é muito bem relacionado, tem outra profissão. É como no tráfico de drogas, onde os grandões não estão no morro. ele coordena os aliciadores, que viajam, ficam uns dias em cada cidade, começam a namorar uma moça, conhecem a família, prometem emprego, casamento. Elas se iludem e vão para fora.

Como trabalha a ONG Chame?
Nosso trabalho não é contra o traficante, é a favor da prevenção. A decisão de migrar é de cada um e a experiência pode ser muito positiva. É normal namorar estrangeiro. O problema é quando esse namoro é a porta de tráfico. O que fazemos é dar informações, mostrar os direitos  alertar para os riscos, fazer com que essa trajetória seja mais segura. A mulher deve checar o lugar de trabalho na internet, combinar com a família de ligar, ter uma senha para dizer se não está bem. e lembrar que quem paga a passagem vai cobrar. Desconfie de quem diz: "Quando você chegar paga aos poucos com seu trabalho". ela pode ficar refém  Ao chegar, ele vai dizer que a dívida é maior e reter o passaporte. Em geral, ela está irregular, porque o visto é de turista. E é ameaçada, caso fuja. Há casos de mulheres que tiveram o filho sequestrado ou a mãe, morta.

Com a crise européia e o crescimento econômico do Brasil a situação não melhorou?
Piorou. Primeiro porque o sonho de ir para a Europa não envolve só dinheiro, mas o glamour de viver no Primeiro Mundo, trabalhar como babá ou dançarina, casar. E com a crise europeia o trabalho está mais precário. Se um europeu recebia 50 euros por hora de faxina e uma brasileira irregular 30, ela agora ganha 15. O programa (sexual) também custa menos. Ou seja, ela agora tem que trabalhar mais para pagar as dívidas.


Qual o perfil da vítima? Negra, mulata? De "beleza exótica"?
Esse perfil não existe. Essa história de exotismo é balela. Os traficantes querem é diversidade: brasileiras, dominicanas, romenas, peruanas, tailandesas. Buscam países vulneráveis. Nos anos 1990, a Europa Ocidental se enchei de mulheres do bloco oriental, por causa da queda do Muro. Ao criar um perfil que não existe você aumenta a discriminação e faz com que a imigração barre certas mulheres. A Carolina Dieckman não está na trama à toa. Uma conhecida minha, de classe média, branca, foi à Europa cuidar de duas crianças. Disse: "Não vai acontecer nada comigo, sou formada em faculdade". Pois não recebia nada e não podia sair de casa. Tivemos que acionar a ONG e a polícia para tirá-la de lá.

Como as atrizes da novela "Salve Jorge" têm se preparado?
elas me perguntam: "Como essas mulheres conseguem ter alegria?" Acham muito difícil entender como podem viver nesse mundo tão chocante e ainda rir. As condições são insalubres  Elas se alimentam mal, tomam remédio para dormir, ficar acordadas, não menstruar. Bebem muito com os clientes, tem que vender dorgas se drogam. Fazer muitos programas no afã de pagar a dívida que sempre aumenta. <as têm sonhos são lutadoras, acreditam que vão sair, planejam formas de fugiir. O que mais querem é achar um cara legal que as tirem dali. O que é raro.




Postagens mais visitadas deste blog

SOBRE A AMBIÇÃO DO AVANÇAR DO TEMPO E SUAS RESPOSTAS: UM TOQUE DE ARTE

CRIADOR E CRIATURA

DOE VIDA: DETALHES A QUEM SE INTERESSAR