Só pra mulherzinhas....
Estava assistindo outro dia a um capítulo da novela "Lado a lado", exibida no horário das 18 horas, na Rede Globo. Eu gosto desta novela. Adoro novelas, filmes e livros de época e a Globo sabe como fazer. É tudo ambientado no Rio de Janeiro dos anos 20, às vésperas da Revolução Feminina. As mulheres existiam como cidadãos de segunda classe, sempre dependentes de um homem para manterem sua honra e sua postura.

Uma das personagens, a Isabel, uma descendente de escravos, engravida. E ela não engravida de seu então noivo e sim de um burguês praticamente desconhecido pelo qual se deixa encantar num momento de dificuldade (quem nunca?). E neste capítulo que eu assisti o tal noivo e o pai descobre a "traição".
A mulher, em 1920 não era dona do seu corpo. Não era dona de sua vontade, ou do seu desejo. O noivo por vezes rejeitava a ida deles a um restaurante melhor, porque ele não tinha dinheiro e a moça sim. Ela foi educada por uma senhora francesa, aprendeu línguas, tinha outra cultura. E queria trabalhar para se sustentar. Acaba grávida e sem rumo. Ninguém a ajuda. Ninguém a apoia a não ser uma tia. Todas as pessoas se voltam contra aquela que perdeu "a honra". Como seu isso pudesse ser comprado no supermercado.
Minha mãe casou grávida, em 1975. E me contou isso só quando eu tinha 15 anos, aos prantos e pedindo perdão. E era 1975, e não 1910. Outro dia a moça que trabalha em casa disse que a nora tem três filhos. Um de cada pai. Que absurdo! E eu pensando: será que alguma coisa realmente mudou?
Ainda outro dia eu parei no estacionamento de um supermercado e, quando desci, um homem dentro de seu carro começou a me xingar. Disse que eu "só poderia ser uma gorda mesmo" e que eu era "enorme e por isso ocuparia mesmo dois lugares". Pelo que eu entendi, entre os xingamentos devidamente registrados numa delegacia de polícia, eu o insultei quando "roubei" uma vaga de estacionamento que eu nem sabia que ele havia reservado. E que ele nem estava perto.
Mulher. Mulher tem que ser! Tem que ser magra, alta, loira, gostosa. Tem que ter filhos, tem que trabalhar e ganhar bem (mas não muito bem, senão ofusca seu homem). Tem que ser compreensiva, atenciosa, boa de cama. Tem que malhar a bunda, fazer supermercado (e, por vezes ser xingada no estacionamento), ter um grande amor. Viver o grande amor, continuar compreensiva. Ajudar os pais, ajudar os filhos e nunca, jamais, cometer erros. Se você for tudo isso aí sim merece respeito.
Atendo mulheres que apanham, que são humilhadas pelos seus parceiros. Mulheres que deveriam estar recebendo apoio, recebem porrada e humilhação. Atendo mulheres que estão com namorados que "tem problemas de assumir a relação" ou "não sei direito se quero me casar com você". Atendo mulheres que são tudo isso, lindas, inteligentes, atenciosas e, mesmo assim, ainda dependem da aprovação de um pai ou de um marido.
Conheço um monte que mantém relacionamentos ruins "só para não ficar sozinha". Conheço tias velhas ainda esperando o príncipe encantado. Virgens. Sim, virgens. Existem mulheres por aí com a minha idade, e até mais velhas, que ainda são virgens. Porque acham que sexo é algo a ser preservado, porque seria uma vergonha para o pai e a mãe, porque não sabem como atrair um homem. E outras mulheres que, pelo contrário, transam por um pouco de atenção e carinho. Mulheres que usam o sexo para não se sentirem sós, abandonadas. Mulheres cujo sonho é casar. Mulheres cujo sonho é ser livre.
Mas o que é ser livre se, apesar de votarmos e termos empregos formais e bem remunerados, não temos a liberdade lá dentro? Por que escolher coisas que jamais nos farão felizes, só para não contrariar uma sociedade lotada de hipocrisia e cretinice? O homem do estacionamento achou o que? Que eu ia para casa chorar no travesseiro e pensar o quão eu preciso perder peso para não ofender seus belos olhos criados com leite A da mamãe-preconceito? Que tipo de liberdade nós, mulheres, estamos nos dando? Você teve filhos? Queria mesmo que eles nascessem ou achou melhor colocar logo uma criança no mundo para sua mãe parar de encher o seu saco? Ou para segurar aquele "relacionamento" que você tem e fala aos quatro ventos, de boca cheia? Ou ser mãe é uma experiência maravilhosa que você está curtindo muito e que sempre quis? Por que precisamos abrir mão dos nossos sonhos para preencher o check list de "mulher do ano"?
Estou falando das mulheres porque sou uma. E porque atendo muitas. E vejo os clichês e os problemas se repetindo na vida de cada uma delas. Ser ou não ser mãe? Trabalhar ou não trabalhar? Posso chegar num homem que eu goste ou não? Devo esperar e não transar no primeiro encontro? Quem sou eu afinal?
Pois é, a pergunta é clara. Você é uma mulher ou um rato? Um pequeno hamster assustado demais com as "verdades" que a sua mãe proferia enquanto batia o bife do jantar. Ou assustada demais para assumir que não, não quer casar, só quer um namorado rico que queira viajar com você. Ou não, não quer trabalhar, quer ter filhos e cuidar deles em casa. Cuidar direito das crianças, caramba, e não se dividir entre vinte papéis que todo mundo acha lindo e recebe homenagens no dia 4 de março. E só lá mesmo.
Quem é a mulher do século XXI? Quem somos nós? Quem é você? E presa a quantas crenças você está desde 1910? Desde que acusaram a Eva de roubar a costela do Adão e, não satisfeita, fazer o coitadinho comer uma maçã? Quanto dinheiro você ainda vai gastar na indústria da dieta, para perder os dois quilos que você acha que fará diferença no seu casamento? E quanto você terá que trabalhar para pagar a conta? Porque não abandonar os papéis dos "eu deveria ser" e só ser? Não dá pra queimar, de verdade, os sutiãs? Ou as cuecas sujas de maridos ainda folgados que acham que tem qualquer direito sobre você?
Sim, este é um texto só de perguntas. Estou aqui procurando e encontrando algumas respostas, mas você, aí, precisa achar as suas.
Andrea Pavlovitsch







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