Quando vamos perceber?



E o mundo aquece 
Por Agostinho Vieira 

O presidente Obama foi reeleito, o Congresso aprovou a divisão dos royalites do petróleo, o Enem terminou sem vazamanto ou denúncia de fraude e o Adriano, finalmente entrou de férias. Enquanto isso, o mundo aquece. Um estudo da consultoria  PwC garante que limitar o aquecimento global a 20 C já é praticamento impossível. Tudo indica que terminaremos o século com um planeta 60 C mais quente. 


A meta de 20 C é defendida por dez em cada dez cientistas e, em 2010, foi transformada em compromisso pelos representantes dos quase 200 países que se reuniram numa das muitas conferências de clima. Quase nada aconteceu. De acordo com a consultoria, em 2011, a intensidade de carbono na atmosfera caiu apenas 0,7%. Para chegar aos sonhados 20 C, seria preciso agora reduzir essas emissões em 5,1% ao ano até 2050. O que jamais foi alcançado em qualquer outro momento da história. 

Os europeus fizeram o dever de casa e cortaram suas emissões médias em mais de 6%. Já os americanos tiveram um corte de 3,9,% por conta do inverno mais ameno e do investimento maciço em gás natural. Aliás, este é um dos problemas. A reeleição de Obama alegra a maior parte dos americanos e uma enorme parcela do resto do mundo. Não que ele tenha feito um primeiro governo brilhante, não fez. Mas a possibilidade de ver o confuso Romney na Casa Branca deixou muita gente assustada. 

Há quatro anos, Obama era o primeiro presidente americano negro que viria num cavalo branco para salvar o mundo. Inclusive do ponto de vista ambiental. Mas os investimentos em energia renováveis continuaram pífios e as posições americanas nos eventos internacionais se mantiveram coerentemente equivocadas. Nenhum acordo assinado, nenhuma meta assumida. Na vida real, só se fala em mais carvão, mais consumo e muito mais gás natural. Enquanto isso o mundo aquece. 

Já a votação dos royalites fez a alegria de prefeitos e governadores. Menos no Rio e no Espírito Santo, é claro. O pote que brilha no fim do arco-íris é de ouro negro. Não importa o preço que vamos pagar. Ninguém sabe exatamente quais serão os riscos do pré-sal, mas já estão dividindo o bolo. Em tese, royalites de petróleo deveriam compensar cidades pelos prejuízos sociais e ambientais da exploração. Investir em educação seria uma alternativa. Mas nada parecido vai acontecer. enquanto isso o mundo aquece. 

Este, por sinal, poderia ser um dos caminhos para os vestibulandos na redação do Enem, que teve como tema "O movimento imigratório para o Brasil no século 21". Os imigrantes ambientais, certamente vão aparecer por aqui. Gente fugindo das secas, das enchentes e de vários outros fenômenos naturais que vão se tornar muito mais intensos e frequentes. Mas antes, é claro, precisamos fazer a nossa parte. 

51% 
É O PERCENTUAL DE REDUÇÃO das emissões de carbono que precisaria ser obtido todos os anos até 2050, para que a temperatura média mundial subisse apenas 20C. Esse índice nunca foi alcançado antes. 
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Um ranking criado pelo Instituto de Adaptação Global classificou 176 países conforme a sua resiliência às mudançaas climáticas. O Brasil ficou em 580 lugar no índice geral, mas aparece em 470 em vulnerabilidade e 710 em prontidão. Somos menos vulneráveis porque não estamos expostos a furacões e tornados. Temos muita água e uma enorme produção agrícola. Já quando se fala em infraestrutura, planejamento e capacidade de reação, a coisa se complica. 

No ano passado, o governo lançou o Plano Nacional de Gestão de Riscos e Desastres Naturais, com prazo de três anos para ser concluído e R$ 16 bilhões em recursos. A maior parte da verba vai para contenção de encostas, limpeza de rios e instalação de alertas e pluviômetros em áreas de risco. Mas estamos caminhando muito lentamente. 

Preocupado com as consequências do aquecimento, o Painel Intragovernamental de Mudança climática (IPCC) divulgou um relatório pedindo aos governos que concentrem recursos na prevenção. E citam dois exemplos emblemáticos: Myanmar e Bangladesh. O primeiro enfrentou um ciclone tropical onde morreram 138 mil pessoas. O segundo também teve um ciclone, bem mais forte, porém com 3.400 mortos. Dois países pobres, mas Bangladesh já trabalhava há 10 anos em ações contra as tempestades. 

Mas se você está entre os que não acreditam em nada disso e acham que aquecimento global é coisa de alrmistas, saiba que já faz parte de uma minoria. Pesquisa Ipsos feita em 13 países, com 13 mil pessoas, mostrou que 75% consideram as mudanças climáticas cientificamente provadas. E 90% acreditam que o clima se transformou nos últimos 20 anos. Émelhor se prevenir. Em tempo: o que as férias do Adriano têm a ver com o aquecimento? Nada. Mas enquanto falamos sobre isso o mundo aquece. 
Fonte: Jornal O Globo - Economia Verde (08/11)