NOVAS FORMAS DE PENSAR



Design thinking avança no mercado como fonte de saber

Poupar dinheiro é difícil para a maioria da população. Para entender melhor as dificuldades quanto à disciplina financeira das pessoas, os profissionais do Itaú Unibanco estão conversando com... nutricionistas e personal trainers. Hã? É que se manter em forma também exige disciplina e, quando alguém deixa de comer algo calórico ou faz exercício, vai colher louros no futuro. Assim como quando se guarda parte do salário. Para a equipe de inovação do banco, deslocar o olhar do cenário convencional pode conduzir a descobertas inesperadas e inovadoras.


Mas em que se baseiam? No conceito do design thinking, tomando emprestado do processo de design de produtos, que, para especialistas, está ganhando no mercado, a força dos MBAs no início deste século. conceito que, muitas vezes, é confundido com a forma de um produto: mas, nada disso, trata-se um processo de como produtos e serviços são gerados.

UMA DISCIPLINA PARA TODOS OS CURSOS
- As instituições de ensino começam a perceber que o design thinking pode ser um vetor de mudança no aprendizado de ensino superior do país - afirma Rique Nitzsche, professor da ESPM - Rio e do Ibmec - Rio, instituições em que, aliás, acaba de implantar laboratórios de design thinking nas unidades Centro e Barra - é um espaço para ser usado por todos os cursos.

O raciocínio segue a mesma linha do japonês que disse no início do mês em São Paulo, o japonês Joi Ito, diretor do Media Lab do Massachussets Institute of Technology (MIT), na palestra de abertura do Challenge of Inovation 2013. Para Joy Ito, "o mesmo papel que os MBAs tiveram nas estrutura da gestão de empresas, o design terá em diversos campos sociais". E tudo indica que esse processo começou, destaca Nitzsche, também autor do livro " Afinal, o que é design thinking?"
- Em Stanford, o design thinking é ensinado para gestores, médicos, filósofos... e até para designers - diz Nitzsche, brincando com a ironia.

O diretor do Private Bank do Itaú Unibanco, Paulo Meirelles, conta que todo o esforço de inovação da instituição começou há uns três anos, com a contratação da consultoria Ideo, do Vale Silício. Hoje, garante, o banco colhe os frutos do investimento num ambiente propício para o processo de design thinking, o espaço chamado Inovateca:
- Nesse processo, não há ideia burra. Inovação não é para gênios, é para gente que tem disciplina para buscar o maior número de informações possíveis e chegar com insights interessantes. Posso dizer que, do ano passado para cá, dobramos nossas projeções de crescimento.

Qualquer setor, sugerem com convicção os especialistas, pode se beneficiar do emprego do "pesamento de design". Pois mesmo as equipes mais talentosas, por vezes, caem na armadilha de resolver um problema sempre da mesma maneira, ressalta Mariana Gutheil, diretora da Perestroika, misto de escola de atividades criativas, empresa de consultoria e incubadora de ideias, que lançou no Rio e em São Paulo, o curso " New Ways of Thinking".
- O design thinking tem a ver com formular, fazer prognósticos e testar. Tem a ver com antecipar o momento do feedback. em vez de gastarmos milhões de reais desenvolvendo um produto, que tal, antes, lançarmos uma primeira versão mais simples, para um número menor de pessoas? - questiona Mariana.

- Quando uma ideia se torna um sucesso, quando algo se torna inovador, nos perguntamos: "Uau, quem fez isso?" Na verdade, o que deveríamos estar nos perguntando é: "Uau como isso foi feito?" - exclama Ricardo Ruffo, sócio-fundador da Escola de Design Thinking, criada este ano em São Paulo, no molde da d.school de Stanford (Califórnia) e de Potsdam (Alemanha). - O "como" é  que deveria ser explorado e analisado. O design thinking acelera o processo de inovação e é uma abordagem que nos ajuda a, justamente, entender o "como".
Entre os professores da nova escola estão arquitetos, designers, diretores de grandes empresas e empreendedores. O programa é distribuído por 32 aulas, totalizando mais de 160 horas, ao custo total de R$4.400. A primeira turma começou há poucas semanas, com 28 pessoas. A classe é diversificada e engloba desde de jovens empreendedores de 20 anos até executivos seniores em transição de carreira, que estão na casa dos 60. As inscrições estão abertas para a próxima turma, que será iniciada em agosto. A ideia, insiste Ruffo, é capacitar as pessoas a partir de uma aprendizagem baseada em projetos reais apresentados por várias empresas. O curso "New Ways of Thinking", da Perestroika, também recebe instruções, nas unidades do Rio, São Paulo e Porto Alegre. São 14 encontros (35 horas/aula), com professores como Israel Mendes, da Aquiris Games Experience, a primeira empresa brasileira a desenvolver games e o sociológo Francisco Araújo, além dos sócios-fundadores da escola paulista, Ruffo e Juiliana Proserpio. O programa sai por R$3.345.
- O curso parte do princípio de que existe mais de um jeito de identificar e resolver qualquer problema ou desafio, tanto no ambiente de trabalho quanto em qualquer situação das nossas vidas - analisa a diretora da Perestroika, Mariana Gutheil, que se formou em design thinking na d.school da Alemanha.

DESAFIOS NAS SALAS DE AULA

As empresas testam a metodologia com resultados positivos. No Itaú Unibanco, por exemplo, foi criado um ambiente propício para as reuniões de design thinking. Na Inovateca, o visual é bem diferente do ambiente de trabalho tradicional do banco: as paredes são móveis, repletas de post-its, os móveis coloridos convidam ao relax, há um biblioteca de livros de inovação e TVs que exibem vídeos bem boladas.

A ideia, explica Paulo Meirelles, diretor de Private Bank do Itaú Unibanco, foi criar um lugar que fosse propício a pensar processos:
- Nos reunimos na Inovateca para buscar insights. Não necessariamente lançar um produto novo, pois o mercado financeiro é muito regulado. O que procuramos fazer é nos diferenciar na experiência para o cliente - diz Meirelles, enfatizando a existência de momentos marcantes na vida de uma pessoa, como o nascimento de um filho ou seu casamento - E queremos desenhar a forma de tratar momentos assim para o cliente. Para isso, juntamos profissionais com backgrounds diferentes.

Para Rique Nitzche, pela primeira vez, o mundo dos negócios está percebendo que há um método de resolução de problemas que não nasceu na área de administração. E pelo jeito, os executivos estão indo atrás desse método, que sugere que não importa o quão óbvia uma solução possa parecer - o que se espera aqui é que sejam criadas muitas soluções para a análise.
- Nas aulas de design thinking da pós-graduação da ESPM - RJ, os alunos resolvem problemas reais das empresas brasileiras, que levam seus cases para a discussão na universidade. Usamos muito os prazos curtos: em 45 minutos, temos que ter 20 propostas - destaca Nitzsche, acrescentando que daí, surgem hipóteses que normalmente nem seriam cogitadas - E isso é bom. Depois, você pode excluir as que não servem, de acordo com as suas restrições quer seja elas de lei, distribuição geográfica, temporalidade etc.

Fonte: Boa Chance