DIA INTERNACIONAL DA MULHER: UM TEXTO FORTE




Quando o médico na sala de parto diz: é menina!  Naquele instante se inicia todo um processo complexo do que é biológico, psicológico e socialmente do que é SER MULHER.



Inegáveis conquistas obtivemos, mas é para pensar que além das disparidades salariais ainda presentes, a mulher também ainda é julgada pelo modo como se veste e se tem uma sexualidade mais livre. Para o homem ter muitas mulheres é ser "pegador, espada"; todos os palavrões, de alguma forma, colocam como inferior aquele "que recebe" o sexo do homem, condição original da mulher, como se isso fosse uma humilhação; o homem de cabelo grisalho é vinho - "quanto mais velho, melhor". O envelhecer na mulher ainda é algo que deve ser escondido, o corpo que precisa ser perfeito...

 Que todas as mulheres tenham a liberdade de forjarem a si mesmas e não por seus pais ou seus homens. Feliz Dia Internacional da Mulher!! Por um dia em que não haja necessidade de comemorar o dia da mulher.

Regina Bomfim
____
O texto abaixo é de Wigvan Pereira

"O mundo não perdoa a vagabunda. Perdoa-se quase tudo: estupro, roubo, assalto, violência. Mas a vagabunda não. Ela precisa ser punida pelo desejo que os outros sentem - ela provocou, não foi? Claro que foi. Um homem bom, decente, pai de família só trairia seus valores, sua ética catolicíssima, ao ser tentado, seduzido, conquistado, praticamente obrigado a trair.

"A carne do homem é fraca", sempre há alguém para nos lembrar. Pobrezinha dessa carne. A gente até se esquece de que essa mesma carne fraquíssima, que não consegue resistir a uma mulher de saia curta, é a mesma que impõe suas vontades a preço de morte.

Culpada é a vagabunda que sorri, que rebola, que fala alto, que dança, que usa salto. Ela precisa ser punida por não respeitar o seu lugar que é lugar escondido, debaixo de panos, debaixo de um homem, debaixo de si mesma. Calada. Depilada. Cuidando da casa. Só tem alguma voz se é mãe, porque mãe é coisa sagrada, imaculada, é de mármore, quase. Mãe que se preze nunca teve ou vai ter orgasmo.

Ninguém perdoa a vagabunda porque ela afirma que é dona do seu corpo. Onde já se viu isso? Mulher querer ser dona do seu próprio corpo? Mulher querer sentir tesão? Mulher querer vários homens? Absurdo dos absurdos.
***
Conheço um caso assim. Um casal se separa porque a mulher descobriu que o marido tinha outra família, além de outras mulheres. Um escândalo. "Coitadinho dele. Tem que perdoar. Homem é assim mesmo. Agora você, mulher, tem que lutar pelo seu casamento, fazer novena, romaria, jejum, promessa, despacho. Mas tem que perdoar! O que vai ser de você, mulher-sozinha? Vai virar mulher-falada."

Ela não quis lutar. Separou. Primeiro homem que namorou: va-ga-bun-da! Depois ainda teve a coragem de deixar esse e começar a namorar outro. "Deve ser por causa da televisão que ganhou, por causa da reforma da casa. Interesseira. Vagabunda e interesseira. Devia pensar nos filhos, que exemplo ela tá dando. Que tipo de cabeça esses meninos vão ter com uma mãe assim: uma mãe que namora?"

E o marido? Onde que fica nessa história? Coitadinho tá arrependido, vai à missa com cara de cachorrinho. "Ela nem pra dar uma chance, ela é que não presta. Queria só arranjar desculpa. Certeza que já tinha homem antes. Vários, se brincar." Daí tem sempre alguém que sabe, que viu, que ouviu, que presenciou. O marido traía porque a mulher traiu antes, segundo as versões contadas. "Se ele não fosse homem tão bom, tinha era matado."

Escuto. Escutei. Não era interior, era capital. Não era de gente sem instrução, era de gente que tem diploma. Não era de gente "sem cultura", era de gente viajada. Era ontem, não Idade Média.

Que tristeza que me dá."

Comentários