FIZ UM BOM NEGÓCIO





Fonte: Revista O Globo
Martha Medeiros

Viva a filosofia popular, que pode ser extraída até mesmo de uma propaganda de tevê. Ainda que seja bizarro ver o Sergio Mallandro, o Supla, a Narcisa Tamborindeguy e o Compadre Washington decapitados em cima de máquinas de lavar, carrinhos de bebê e aparelhos de som, a ideia é boa. Desapega, desapega.

Você tem feito um bom negócio?


A todos os ligeiros, minha admiração e cumprimentos. Sou do time das apegadas – portanto, das lentas. Costumo esticar a validade de tudo, sempre acreditando que ainda há um jeito, que ainda não se esgotaram as tentativas, e assim vou guardando roupas que não uso mais, ideias para textos que não chegaram a ser escritos e principalmente pessoas com quem já não tenho compatibilidade, apostando na fé celestial de que voltarão a significar o que significaram um dia. Não voltam. Desapega, desapega.

Aqueles sonhos que você tinha de que o casal envelheceria companheiro, de que vocês dois atravessariam madrugadas conversando? Desapega.

Que depois da conversa ainda sobraria algum desejo? Desapega, desapega.

Essa é pra mim: “sabe nada, inocente”. Tão racional por um lado, tão romântica por outro. Poderia já ter mudado de vida, não fosse tão apegada àqueles com quem construí vínculos, acreditando na potência da intimidade, algo que não se cria em dois ou três meses, é preciso um investimento a longo prazo. Mas o tempo está passando e é preciso deixar de acreditar em romantismo, o mundo está obcecadamente instantâneo, frenético, inconstante. Desapega.

Tá, desapego. Mas o que me darão em troca?

Leveza, dizem.

Ok, é um bom negócio. Fechado.

Leveza é uma conquista da maturidade. Quase não a encontramos entre adolescentes e jovens de 18, 22, 26 anos, todos preocupados em ganhar dinheiro, encasquetados com questões irrespondíveis, tentando controlar aquilo que é alçada do destino apenas. Julgam-se superpoderosos, detentores de uma sabedoria particular, só deles. Levam nas costas sua mochila cheia de planos, defendem com vigor suas escolhas, enquanto que nós, que já fomos como eles um dia, hoje sabemos que não adianta, a vida é metade o que escolhemos e metade o que não escolhemos: a parte que se impôs sem chance de negociação. Tivemos que vivê-la também. Nem tudo se consegue planejar.

Cedo ou tarde eles aprenderão que pouco se pode fazer contra o surgimento das fatalidades, dos imprevistos e das urgências emocionais. Que chegará a hora de depositar as armas no chão, levantar os braços e deixar que a vida os conduza.

É quando finalmente se faz um bom negócio: a gente abre mão do nosso velho e rançoso discurso de sabe-tudo e, em troca, a vida nos devolve a graça e a delicadeza. Para que carregar tanto peso, tanta certeza, tanta ilusão? Desapega, desapega.

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