DISCUTIR A RELAÇÃO


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Ana Cristina Reis
Fonte: O Globo



Acho admirável quem é capaz de chamar o parceiro para conversar. Não sei discutir a relação; não tenho essa aptidão. De três, uma: a conversa vai ser maçante; a conversa não vai levar a nada; a conversa vai levar a outra conversa. Mas sou gato escaldado: meus pais, tios e avôs são todos separados, e a única vez em que “marquei uma conversa” foi a única vez em que meu marido se esqueceu de que tinha um compromisso comigo.

DR é a expressão moderninha para discutir a relação, mas a prática é antiquíssima. O professor Marcelo Backes, falando da “Medeia” de Eurípides, ressaltou que a peça foi uma das primeiras obras da história a “discutir a relação”. Sim, estou de volta aos cursos na Casa do Saber O GLOBO. O tema da vez é Grandes Mulheres Trágicas da Literatura.

Para começar, senti a maior empatia pelo autor. Eurípides, além de austero, pouco sociável, individualista, ascético e crítico, detestava ginástica: “De todas as milhares de pragas da Grécia não há nenhuma pior do que a raça dos atletas”.

Seus temas preferidos (todo clássico nasce moderno; a antiguidade era freudiana e não sabia) eram as agitações da alma; casos psicológicos extremos; personagens atormentados por sentimentos internos dolorosos; gente no limiar da loucura; e a condição submissa da mulher, que ele abominava, dizem os estudiosos, apesar de ter caracterizado a mulher como “mais terrível que a serpente” e “o pior dos monstros”.

Me fez lembrar uma passagem do seriado “The fall”, em que a policial Stella diz, embasada em pesquisa: “O maior medo dos homens é que as mulheres riam deles; o maior medo das mulheres é que os homens as matem”. A mitologia não sabia dessa pesquisa: Medeia achava que Jasão, ao não cumprir sua promessa de lhe ser fiel, tinha rido dela; e Jasão, acreditando que ganharia a anuência da mulher na lábia (“Por mais que me odeies, eu jamais saberia querer-te mal”, ele teve a ousadia de dizer), não previu o revide: o assassinato de seus filhos com Medeia e da segunda mulher. Medeia não o matou: isso seria misericórdia.

Com o perdão do trocadilho, a vida de Medeia é a crônica de uma tragédia anunciada: se você ficar para sempre comigo, eu farei tudo por você, foi o que combinou com Jasão. E Medeia fez muito: abandonou seu país, matou o irmão, deu recursos ao marido para que vencesse batalhas horripilantes, teve dois filhos.

O marido prometeu. E não cumpriu. Prometer e não cumprir vem de tempos imemoriais. A diferença é que na Grécia Antiga havia a noção de timé. O termo, que pode ser traduzido como honrar, estimar ou dar valor, estava intrinsecamente vinculado à identidade de uma pessoa na sociedade. Ao sacrificar tudo por Jasão (não vamos discutir aqui se abrir mão de tudo por alguém é burrice ou amor...), ela esperava que seu homem a valorizasse. Em vez disso, ele a trocou pela filha de Creonte.

De um lado, a decepção (“Aquele que era tudo para mim se tornou o mais pérfido dos homens”). De outro, o desterro social. Medeia não podia voltar para casa; estava desonrada. Naquele tempo, existia vergonha na cara.

Somando tudo, nasce uma vingança proporcional à sua desgraça. Como diria Chico Buarque ,“Já lhe dei meu corpo, minha alegria/Já estanquei meu sangue quando fervia/ Olha a voz que me resta/ Olha a veia que salta/ Olha a gota que falta/ (...) Deixe em paz meu coração. Que ele é um pote até aqui de mágoa/ E qualquer desatenção, faça não/ Pode ser a gota d'água”.

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Qualquer semelhança da obra de Eurípides com a programação do canal Investigação Discovery (“DNA criminoso”, “Amor assassino”, “Pecados mortais”, “Suspeito improvável”, “Crimes de primeira”, “Paixões perigosas”) não é coincidência ou ficção — é a tragédia da vida. 



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