segunda-feira, 25 de setembro de 2017

SAUDAÇÕES À PRIMAVERA: UM TOQUE DE ARTE


Photo by Joel Filipe on Unsplash
Não sei quantas almas tenho
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.

( Fernando Pessoa )

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

RELAÇÃO HOMEM E NATUREZA


Photo by NASA on Unsplash
Furacões, tsunamis, terremotos, desmatamentos... Notícias que nos chegam de tempos em tempos. Estes fenômenos costumam deixar a todos perplexos.

 O homem vendo-se como um ser superior à natureza, que conseguiu controlar, tendo com a mesma uma relação apenas extrativista, predatória. É possível observar que esta visão da natureza como coisa a ser usada, uma das mais fortes marcas da fundação do Ocidente Judaico-Cristão. 

O Humanismo foi um importante movimento intelectual do Renascimento ocorrido no final do séc XIV ao início do séc XVII impulsionado pelos avanços nas navegações, nas artes, na política, entre outros que coloca o homem como o pináculo, o ponto mais alto de toda criação, dando um "pontapé inicial", influenciando fortemente no desenvolvimento de uma psiquê coletiva que a partir daí passou a acreditar num sentimento antropocêntrico de supremacia sobre todos os outros "companheiros de jornada evolutiva" com quem compartilhamos a vida na Terra. 

Este sentimento deu origem a uma grande evolução na capacidade criativa do homem, mas em contrapartida também produziu, um sem número de apropriações destrutivas, ações, atitudes caóticas que acabaram afetando todas as outras formas de vida do planeta,  suas reservas naturais de um modo sem precedentes na história. O impacto destas ações é objeto de estudos e discussões acerca da interferência humana no ecossistema, no clima e na desigualdade econômica dos aglomerados urbanos.

O conceito de superioridade, de estar no "topo da cadeia alimentar" impregnou a mente coletiva da humanidade. Ao abrir caminho para este tipo de visão, estamos abrindo caminho para todo tipo de ideia de superioridade seja racial, religiosa, que uma região ou nação é superior a outra, discriminações sexistas... Esta visão separatista original produziu e produz sofrimentos em nós e na humanidade inteira porque ela se ampliou com a evolução do homem. O homem nunca esteve tão doente, obesidade, diabetes, hipertensão, depressão, ansiedade... Não afirmamos, mas é possível que tudo esteja interligado.

Em seu livro, Well Mind, Well Earth, o psicólogo e ecologista Michael J. Cohen afirma que o mundo natural é "uma outra civilização como a nossa que "cada um de nós é parte da civilizada e sempre mutante perfeição da Natureza", ressalta que pessoalmente, socialmente e ambientalmente boa parte dos nossos problemas resultam de diferenças entre processos que o ambiente natural e nós usamos para construir nossas relações. Nossa lógica envolve a mente abstrata, a linguagem, símbolos e imagens, enquanto que o mundo natural se expressa através da atração de energias, uma comunicação não linguística.

A fim de superar tais cisões, é trazido o conceito de identidade como instrumento capaz de promover a complexa articulação entre Natureza e Subjetividade. Através dela compreendemos o modo como os sentidos presentes no conceito de Natureza podem ser auxiliares no processo de construção da identidade humana - a qual reflete conceitos, subjetivos, intersubjetivos (eu e o outro) e planetários. Diante dessa visão ampliada de nós mesmos e das relações concretas e abstratas que estabelecemos com o mundo. Assim estabelecemos a relação entre Psicologia e Ecologia como elementos que nos afetam além de uma necessidade de "plantar árvores" ou "economizar água" em função de uma crise hídrica no mundo conceitos muitas vezes em nós incutidos visando o interesse econômico de alguns.

Toda a Terra é sagrada. Como parte da 'malha da vida', nós seres humanos herdamos também a integridade de forma congênita. É a nossa natureza interior como um canal aberto para a Terra que devemos aprender a nos reconectar, analisar validando sua integridade/identidade e cuidar com amor sincero do planeta que somos todos nós. 




Um dos pilares do PSICOLOGIA EM FOCO é a Ecologia, algo que venho estudando para integrar à minha prática (ainda não sei como). Já existiram alguns posts no Blog, mas nenhum que falasse com exclusividade, por isso senti necessidade e também fui motivada pelos recentes acontecimentos. Quase sempre temos notícias sobre alterações no clima ou algum outro fenômeno natural. 

Depois que tinha criado este post tive contato com o trabalho do pianista Fabio Caramuru e o projeto Eco Música criado por ele. Através do som de vários pássaros, alguns insetos e bichos bem conhecidos por nós, ele, que gosta de improvisar no piano, compôs músicas e criou um espetáculo audiovisual lindo. Fui ao seu recital e saí de lá encantada. O que mais chamou me atenção, foram os espaços vazios entre uma atração e outra.

Ele, como músico e criador do projeto não temeu que o silêncio desinteressasse as pessoas. Algumas saíram no meio do espetáculo justo no meio destas pausas. E como o contato com o vazio pode incomodar... A Natureza tem som, mas também tem muito silêncio e nós humanos no topo da criação, devemos continuar evoluindo, mas também saber nos abrir às suas linguagens, pois estando no topo da cadeia que sejamos guardiões de todas as outras formas de Vida. Para quem está em São Paulo, me parece que o espetáculo irá para Sesc. O músico tem um site com seu nome. Imperdível

Regina Bomfim

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

PSICOFOBIA: O PESO DAS PALAVRAS PODE MACHUCAR

Photo by Ian Espinosa on Unsplash

PSICOFOBIA - O QUE É? 
A psicofobia é o preconceito contra pessoas que sofrem de transtornos mentais e está mais presente no dia a dia do que imaginamos. Aparece quando alguém diz que está fazendo terapia e alguém pergunta a razão num tom de pena ou então ironiza, rejeita. Como a palavra preconceito se explica em sua própria estrutura, é fruto do desconhecimento que causa rejeição e como qualquer tipo de prejulgamento, causa prejuízos a quem sofre. Nem sempre buscar atendimento psicológico implica ter um transtorno mental grave, mas não é disso que vamos falar.
 De modo geral, a procura se dá quando o sofrimento já afeta de modo significativo a qualidade de vida do indivíduo. Costuma ser uma atitude muito pensada e quando comunicada a familiares e amigos acontecem as ironias, o pensamento "é frescura" e os relatos daqueles que "passaram por situações piores e venceram". É para muitos assinar um" atestado de fraqueza, de total incompetência" diante da própria vida. Algumas vezes é esse o dilema a ser enfrentado, além da própria dor: a falta de apoio, incompreensões. Isto está mudando, mas ainda acontece.
Durante muito tempo, pessoas que sofriam transtornos mentais sempre estiveram á margem da sociedade, associados a demônios, bruxas e o que havia de pior. Seres perigosos a quem apenas restava o abandono e o temor. Com o desenvolvimento, da Psiquiatria, Psicologia, Neurociência etc a busca por compreender e tratar estes fenômenos foi trazendo um novo olhar com estudos que cada vez mais dialogam com várias dimensões humanas seja fisiológica, emocional, social, espiritual etc. Tudo isso pouco a pouco vai diluindo preconceitos. 
É um processo ainda em curso e por isso pessoas portadoras de transtornos vivem o reflexo de toda essa visão equivocada do passado associada às visões não menos padronizantes do tempo presente. Resquícios desta perspectiva higienista ainda permanecem no discurso e na prática em diversos segmentos da sociedade. A informação pode ajudar.

TIPOS DE AGRESSÃO

Ah! Isso é uma fase, a tristeza vai embora, passa, fica assim, não.

Você é louca (o), precisa ser internada (o), é muito difícil conviver com você!

Isso é frescura, deixa disso, tudo pra você é doença!

Você quer moleza, vai trabalhar!

Se eu venci você também vai conseguir! Minha vida foi muito pior!


1) Transtorno de saúde emocional é doença

Os transtornos emocionais acontecem por uma série de fatores: biológicos, nutricionais, genéticos, familiares, pessoais... Ninguém tem controle total sobre todas as contingências da vida, quanto mais no desenvolvimento de um transtorno psiquiátrico.

2) A pessoa não escolhe sofrer nem para de sofrer

Não é "covardia", nem "frescura", nem para "chamar atenção" e muito menos "incompetência". Ninguém ataca uma pessoa ou a manda parar de espirrar porque está com gripe, por isso não adianta pedir para a pessoa com depressão parar de se sentir triste, por exemplo. Há pessoas cujos transtornos psiquiátricos se desenvolvem em função de alterações orgânicas e estar ou não bem não é ato da vontade e racionalidade.

3) Todos nós estamos suscetíveis

Como foi dito acima um transtorno de saúde emocional é fruto de fatores biopsicossociais diversos que não temos controle e nem total ciência. Deste modo, qualquer um de nós pode ter um transtorno. Sim, pode acontecer com qualquer pessoa independente de situação sócio-econômica, cor da pele, religião.

Para ter um transtorno mental basta ser pessoa. Se você é pessoa, faz parte do grupo de risco. Todos estamos abertos à possibilidade de alterações em nossas emoções.

Sim, podemos prevenir, assim como podemos prevenir as doenças cardiovasculares com alimentação balanceada, atividade física regular, reconhecimento e manejo das próprias emoções (quando não falamos de causas biológicas de transtornos mentais). A prevenção é possível, a assepsia não.

Pessoas do meio artístico, como Monique Evans (transtorno de Borderline) e Cassia Kis Magro (Bipolaridade e bulimia) e recentemente o Padre Fábio de Melo entre outros trouxeram a público a sua jornada quase sempre tortuosa com a doença e as incompreensões vividas. O corajoso relato destas pessoas públicas ajuda a diminuir o preconceito e superar falsas concepções sobre o transtorno. Dia 12 de abril é o Dia Nacional de Enfrentamento contra Psicofobia.

O cuidado e a atenção de pessoas com transtorno é muitas vezes intensivo e por isso difícil. Mas isso não justifica agressões e preconceitos. 

BUSQUE AJUDA

Há pessoas que por medo do preconceito e/ou por alimentar em si estes mesmos preconceitos, adiam a busca por ajuda, mesmo sentindo precisar muito. Deixo um link sobre os lugares que realizam atendimento social para aqueles que não podem custear o tratamento aqui no Rio de Janeiro. Existem também Neuróticos Anônimos, o Centro de Valorização da Vida. Graças à internet é possível descobrir outras possibilidades. Se souber de algum local que eu não saiba, deixe registrado que publicamos de algum modo.

Buscar ajuda

Associação Brasileira de Psiquiatria

Regina Bomfim









segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O ESTRESSE E O RITMO DA VIDA




Na semana retrasada, minha mão direita doía muito, a ponto de não conseguir realizar tarefas banais como girar a maçaneta da porta e abotoar minha roupa. Fui ao médico que me prescreveu remédios fortíssimos, mais ressonância e fisioterapia que ainda não comecei. Início de tendinite. Nunca havia tomado um comprimido sublingual na vida. Foi um dia que transcorreu mais "desacelerado. Os remédios começaram a fazer efeito no segundo dia. 

No auge das dores, fiz uma retrospectiva do que poderia ter acontecido e observei que vinha digitando muito rápido, além de perceber que estava me impondo uma velocidade na solução de certas questões, jogando essa "rapidez nas tarefas diárias. Observei em mim tensões que estavam na minha alma e estas estavam governando meus sentimentos, meus atos, atingindo meu corpo. Em geral, entendemos a dor no corpo como o sinal mais visível e aí foi possível observar esta integração mente - corpo. Pude perceber que estava desrespeitando meu ritmo. Você já tentou tirar "uma selfie físico-emocional" de si mesmo? "Fotografar" um emoção? rs

Cada um imprime um ritmo pessoal à vida. Podemos estar mais "elétricos" ou mais lentos em algumas situações. Cada um tem seu ritmo próprio adaptável às diversas situações da vida, podendo ser flexível ou não, dependendo de como somos. Ter atenção a este ritmo pessoal é uma das condições indispensáveis para estar bem ou não conosco mesmos. A saúde e a doença vem de como nos relacionamos com nosso próprio ritmo e do respeito que damos a este.

Como não relacionar ritmo pessoal sem falar do estresse? Um processo tão comum dos nossos tempos quase sempre tão corridos. Na idade da pedra também era comum pois a luta pela sobrevivência era constante. Hoje nossa luta pela sobrevivência também é árdua e diária. As notícias dos jornais, o dia a dia repleto de problemas  e decisões nos conduzem ao universo do estresse.

O estresse é o nosso organismo reagindo a estímulos internos e externos ligados à necessidade de luta ou fuga. Contudo há o estresse positivo e o negativo. Quando positivo, nos leva a realizar, concretizar coisas havendo um nível adequado de Adrenalina relacionada a este impulso de realização. Quando negativo, gera uma produção excessiva de Adrenalina que ocasiona um colapso em nível corporal, físico ou emocional desequilibrando todo nosso funcionamento.

O estresse positivo e negativo estão associados ao modo como administramos nosso ritmo interno, o conhecimento adquirido por nós sobre este ritmo e o repeito a ele dedicado. Aprender a adequar aquilo que nos é exigido pelo meio externo e interno (às vezes somos nossos piores carrascos) e o que é possível executar.

A doença surge como um alerta do corpo para a necessidade de atentarmos para nosso ritmo. Os sintomas jamais são apenas sintomas, mas amostras de algo maior que está acontecendo. Temos um sistema (corpo-alma) perfeito que nos envia diversos sinais que de modo geral começam sutis. Estar aberto a exercitar a capacidade de ouvi-lo é uma arte, pois nosso corpo/alma são muito sábios. O problema é que vamos sendo condicionados a não ouvi-lo ou respeitá-lo por vários motivos. E, nosso ritmo que está bem dentro de nós é desrespeitado a cada momento, criando novos desequilíbrios (físico, mentais ou emocionais).

E COMO RE- APRENDER A RESPEITAR NOSSO RITMO?

A auto observação é fundamental, sendo o tipo mais básico de meditação. 
  1. Como é o seu despertar? 
  2. Você tem acordado cansado ou descansado com energia ou vigor ou sem vontade de fazer nada? 
  3. O que você faz durante o dia, suas tarefas, como você as realiza? Com motivação ou por obrigação? 
  4. Como equilibra as tarefas que motivam e as que não se identifica? 
  5. Você faz do seu trabalho algo emocionante e prazeroso?
Há tarefas enfadonhas que podem ser realizadas de um jeito melhor, criado por você. É possível encontrar no trabalho uma fonte de prazer (que não seja única). É possível sentir prazer em coisas pequenas como observar uma árvore em flor, o canto dos pássaros, ver o mar etc. Pergunte a si mesmo se a sua felicidade está em boa parte condicionada apenas à obtenção de algo. Ser feliz sem motivo concreto pode trazer novos significados à Existência. Tudo isso são modos de aprender a administrar o próprio estresse.Ter prazer é algo fundamental à vida. O prazer é parte fundamental do respeito e aceitação daquilo que somos com nossos limites e possibilidades.

Claro que nem sempre estamos em estado de prazer, inclusive para alcançarmos o prazer é possível passarmos por estados de desprazer. Aprender a nos relacionarmos com todas as experiências vividas de um modo cada vez mais mais saudável e instrutivo para o nosso crescimento é um exercício.

O estresse negativo nos paralisa seja por um colapso nervoso, parada cardíaca ou reações emocionais fortes, tais como a depressão, as crises de pânico. são diversas as suas manifestações. Todavia se aprendermos a estar atentos a nosso ritmo interno, relacionando-os com a realidade e nossos limites, podemos viver de modo mais equilibrado. Podemos, se assim quisermos, modificar conceitos que aprendemos para ter melhor qualidade de vida...Um dia de cada vez.

Regina Bomfim
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