MEDALHA DE OURO: O MUNDO GIRA EM TORNO DELA

A obsessão por subir ao lugar mais alto do pódio olímpico pode custar caro ao atleta. Popov é um exemplo de como agir
Por Dorrit Harazim
Fonte: Jornal O Globo – Caderno Olimpíadas (p. 16 13/08/2012)
Como objeto, a medalha de ouro olímpica é modesta. Mede 85 milímetros de diâmetro, sete de espessura e pesa 400 gramas. Apesar do que sugere o nome e a fama, apenas 1,34% de sua composição é de ouro. O restante é preta (92,5%) e cobre (6,2%), tudo extraído de dois cantos opostos do mundo: da mina de Kennecott Utah Copper situada perto de Salt Lake City, nos Estados Unidos, e da Oyu Tolgoi, na Mongólia, ambas pertencentes à mineradora Rio Tinto, grande patrocinadora dos Jogos.


A medalha tampouco é espécime único, pois terá sido distribuída em 302 cerimônias de premiação, junto com suas primas mais pobres de prata e bronze. Mesmo assim, para cada um dos 658 atletas que desceram do pódio com uma de ouro no peito, o efeito pode ser intoxicante.
"Subir ao degrau mais alto de pódio é uma sensação quase extracorporal", definiu o atleta russo Ilya Zakharov, vencedor do salto ornamental de trampolim de 3 metros.
Dependendo do tamanho do naco de vida pessoal despendido para chegar ao topo, o vazio que se segue à conquista da meta também não é fácil para o atleta. Depois do ouro olímpico, nada mais parece ter graça – a não ser outro ouro olímpico. Só que a perspectiva de ter que esperar por infindáveis quatro anos para voltar, talvez, ao pináculo, pode abater muito atleta graúdo. O nadador americano Michael Phelps, por exemplo, ficou um ano à deriva, sem foco, à procura de si mesmo, após conquistar oito ouros nos Jogos de Pequim, em 2008. A russa Yelena Isinbayeva, duas vezes campeã no salto com vara, também teve um ano emocionalmente errático depois de eletrizar Pequim em 2008.
"Só não tive depressão nem nada parecido porque eu mesmo decidi ficar fora d´água por seis meses, depois dos jogo da Barcelona e Atlanta", explicou ao Globo Alexander Popov, até hoje o único nadador da História a vencer os 50 m e 100 m livre em duas Olimpíadas consecutivas. Nem Phelps conseguiu repetir o ouro em duas mesmas provas de sua frondosa coleção. Popov conta que só voltou a nadar quando já estava desesperado de necessidade de retornar. "Soube que era a hora quando me senti faminto por treino, faminto por competição.
A HORA CERTA DE SAIR DA CENA ESPORTIVA
O russo também soube como e quando sair de cena, o que tampouco é fácil – tratou de transferir para a vida pós-olímpica a elegância com que deslizou nas piscinas. hoje aos 40 anos, é membro do Comitê Olímpico Internacional, presidente honorário da Comissão dos Atletas do COI e porta-voz da Omega, a marca de relógios responsável pelas medições de tempo das competições olímpicas.
Foi nesse papel que ele se apresentou dias atrás num casarão alugado pela Omega, no estiloso bairro londrino de Soho. À parte o contratual cebolão modesto Co- Axial Chronoscope Red Gold de US$ 15 mil que trazia  no pulso, mudara pouco desde que virou lenda: sempre a mesma elegância imperial.
Indagado sobre o que fez com a compulsão competitiva que o fez reinar por uma década, respondeu:
"A gana e a competitividade continuam lá, são parte de você, nunca desaparecem. Mas precisa transferi-la para outra esfera, ter outras metas, aprender uma nova linguagem. Descobri que no hard drive do meu cérebro ainda sobrava espaço (para outra coisa)".
A única característica que Popov acredita ser comum aos atletas de elite é o aguçado desenvolvimento sensorial. "Somos como uma serpente, quem tem audição ruim, pouca visão e ainda assim percebe tudo a sua volta", compara. Ele relembrou um de seus treinos obrigatórios para aprender a sentir o tempo e controlar o relógio interno: deitar-se no chão, fechar os olhos e sinalizar ao técnico o exato momento da passagem de um minuto. Consegue até hoje cravar quando o cronômetro marca 59,73 segundos.
A busca do ouro olímpico produz exemplos eloquentes a cada nova edição dos Jogos. Londres 2012 foi a vez do veterano Nick Skelton, de 54 anos e uma coleção completa de louros no hipismo, inclusive seis títulos mundiais. Ele poderia ter assistido às provas de hipismo por equipe confortavelmente instalado no sofá de sua casa. Afastado do esporte há 11 anos por ter machucado o pescoço numa queda, já era cultuado como um dos grandes ícones britânicos do esporte no país que mais idolatra cavalos. Mas faltava uma medalha olímpica na vida de Nick Skelton. Por isso, saiu da aposentadoria, treinou como um condenado e saltou para a glória olímpica dando ao Team GB o primeiro ouro em salto por esquipe desde de 1948.
Nem mesmo Roger Federer, cujo predomínio nas quadras de tênis reescreveu a própria história do esporte, abre mão do ouro individual que há três edições dos jogos olímpicos teima em escapulir do seu pescoço. Desta vez perdeu para o britânico Andy Murray. "Estarei com 35 anos na Rio 2016 e não sei se o corpo vai acompanhar a mente. Mas quero está lá", admitiu. e não há atalhos para ser número 1, é focar e treinar".
A disparidade entre o valor nominal de uma medalha olímpica e o quanto um atleta é capaz de doar de si para obtê-la é colossal. Sete anos atrás, o atleta americano Anthony Ervin vencedor dos 100 m livre nos jogos de 2000, decidiu colocar seu ouro olímpico no e-Bay. envolvido em ações sociais, resolvera doar a renda para vítimas de alguma catástrofe climática. Pois bem, arrecadou U$ 17.500. Como combustível humano, porém, a mera perspectiva de uma medalha tem um valor ilimitado.
Na semifinal do revezamento 4 x 400 metros masculino, por exemplo, o americano Manteo Mitchell completou a sua parte da corrida com a perna esquerda fraturada. Dias antes, ele havia sofrido uma queda numa escada e não notara o quanto a sua fíbula estava comprometida.
"Dei um urro de dor ao sentir o osso quebrar depois da largada, mas ninguém ouviu em meio à gritaria no estádio lotado", contou mais tarde. Mitchell conseguiu passar o bastão do revezamento em 45 segundos – apenas um segundo mais lento do que sua meta original – e os Estados Unidos obtiveram a segunda maior marca da prova.
Basta olhar o quadro final de medalhas de um Olimpíada para constatar o óbvio, que nem sempre é aceito pelo torcedor: como é difícil conseguir uma única medalha de qualquer cor. e como são poucos os que conseguem obter um ouro.
Das 205 nações que enviaram atletas para competir em Londres, apenas 85 conseguiram alguma medalha. São portanto, 1120 as nações que retornam para casa sem ter subido ao pódio uma única vez.
No patamar mais alto, o do ouro, o ar é ainda mais rarefeito: somente 54 dos 205 países participantes conseguiram vencer pelo menos uma só prova.
Já por isso, a cada nova edição dos jogo surgem formas variadas de se computar o desempenho das nações, permitindo interpretações que servem ao interesse de cada um. a contagem clássica continua sendo por número de ouros. Mas desde a Olimpíada de Pequim, a soma total de medalhas – bronzes,pratas e ouros – também adquiriu respeitabilidade, por ser um critério mais representativo. E, de lá pra cá, surgiram ainda outras variáveis, como número de medalhar por cada cem mil habitantes, por PIB, número de modalidades esportivas.
NEM A RAINHA TERIA PRIVILÉGIOS
Se tomarmos as três últimas edições dos Jogos (sem contar 2012), a Austrália encabeçaria a lista de uma medalha de ouro para cada 397 mil habitantes. e o Brasil cairia para a turma dos lanterninhas, com um ouro para cada grupo de 25 milhões de brasileiros. Entre os países emergentes conhecidos como Brics, pior do que o Brasil só mesmo a populosa Índia, de 1,2 bilhão de habitantes, que em mais de um século de participação olímpica subiu ao pódio apenas 18 vezes – sendo 11 por medalhas em um mesmo esporte, o hóquei.
Na China, o problema começa a ser inverso, pelo menos Henry Fok, herdeiro de uma das maiores fortunas do país. ele acaba de avisar que vai parar de recompensar com um quilo de ouro cada campeão olímpico de seu país. Foi seu pai que instituiu a prática após os Jogos de Los Angeles, em 1984. Naquele ano, a China conquistou suas primeiras medalhas olímpias, mas seus atletas receberam apenas um jantar de agradecimento do governo comunista de época. O patriarca Fok, nascido na Hong Kong, que à época ainda era colônia britânica, decidiu então então remediar a mesquinharia. Só que desde então, as 15 medalhas de Los Angeles já se tornaram 163 ouros sem contar os 38 agora conquistados agora em Londres. É uma conta que começa a ficar salgada para os herdeiros de Fok.
Ontem à noite, com a entrega da última das 658 medalhas de ouro aos vencedores da maratona, esvaziou-se o espaço que ocuparam no cofre real da Torre de Londres, onde permaneciam sob a guarda armada que zela pelas jóias da coroa britânica. Nem que a monarca desejasse ficar com uma delas, conseguiria – teria de competir, e vencer, para juntá-la ao tesouro da Casa de Windsor.

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