JANEIRO BRANCO: MÊS DA SAÚDE MENTAL, SAÚDE MENTAL SEMPRE

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Falar de saúde mental é compreender que esta é, sem medo de ser audaciosa em minha posição, o território, o recurso natural, a tecnologia mais valiosa da existência que cabe ao ser humano explorar. Como ainda somos estrangeiros dentro de nós mesmos, apesar dos  importantes avanços que somos capazes de criar. 

As perspectivas de crescimento dos transtornos mentais e seus inegáveis danos à saúde e à produtividade por cada vez mais incapacitarem ao trabalho e ao desfrutar da vida, torna-se cada vez mais algo que não mais pode ser ignorado, daí a iniciativa de transformar o mês de Janeiro no mês da Saúde Mental -  JANEIRO BRANCO.

Em muitas ocasiões o PSICOLOGIA EM FOCO falou sobre o quanto se tornou insustentável manter a separação corpo e alma - O penso, logo existo de Descartes, somado a todos os pensadores que forjaram a estrutura e o funcionamento do Ocidente, tem se mostrado ineficaz ao longo dos anos para dar conta da comp…

... E A MÍSTICA: "A INQUIETAÇÃO DA VERDADE E O ESPANTO DA BELEZA HÃO DE SALVAR O MUNDO".

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Por Marcio Tavares D´Amaral


" Tenho dito: a inquietação da verdade e o espanto da beleza hão de salvar o mundo. Mas não se oferecem de graça. A filosofia e a poesia são o seu trabalho. Depois de prontos o poema e o raciocínio parecem coisas a serem usadas. Não são. São pedaços de transcendência. Assinalam o nosso desejo de mais do que nós mesmos. Nós e o mundo somos pouco. A inquietação e o espanto nos permitem transcender e inventar um mundo em que estejamos mais em casa. A transcendência é o tecido da filosofia e da poesia. Mas também o da mística.


Quando ouvimos 'mística' pensamos logo em pessoas rezando. em religião. As religiões são mesmo mais abertas a essa experiência do que excede os limites em que vamos vivendo. Deixemos essa pessoas ajoelhadas, é uma atitude digna diante do mistério. E vamos ver se as pessoas que não têm o habito de rezar quando encontrarem o misterioso também não são capazes da tensão mística.

Parece que sim. Muitas pessoas que estão insatisfeitas com o mundo e procuraram nele uma dimensão oculta aos sistemas de ser, pensar e dizer e poder, para se puxarem por ela para cima e para fora, serão místicas. e não precisam ser pessoas religiosas. O que não pode lhes faltar é o sentimento de um oculto mais verdadeiro - e a esperança. Parece pouco. Não é. É toda a diferença entre sofrer conformadamente e, em desconformidade com o simplesmente dado, ansiar por um ar novo, mais puro e maior, que dilate os pulmões como o primeiro que respiramos na vida, e, justamente nos faz viver.

Olhemos para a palavra. De novo. As palavras sempre vêm em nosso socorro quando estamos em pane de sentido. Mystos é o radical de 'místico'. Significa fechar os olhos. Não para não ver. Nem para olhar 'para dentro'. Mas para ver melhor. Os místicos percebem que a realidade  não tem só a dimensão com que se apresenta aos nossos olhos e ao toque das nossas mãos, mesmo quando através  de grandes telescópios e manipulações robóticas. Essa dimensão é importantíssima, claro. Sem ela não temos a realidade por perto. Mas é pobre. O mundo, a vida, são tão complexos! Os místicos sabem disso, fecham os olhos para não verem demais o manifesto. Para os abrirem sobre o oculto. Amam o mistério. Os mistérios simples. O misterioso pequeno que acompanha o ser de todas as coisas, sentimentos e relações. como o amor, por exemplo. Os que não fecham os olhos procuram as determinações genéticas do sentimento amoroso, sua localização no DNA. e é uma busca altamente importante. Ou querem encontrar as condicionantes sociais do amor. e as encontram, e é bom. Mas quem vive a experiência sabe que ela muda a vida. E é tomado por ela. Essa é uma dimensão transcendente em relação ao real simplesmente dado, genético ou social que seja. É mais do que - Assim também a fé, e outras situações extremas da vida. 

Pensa-se logo em religião porque é nela que se dá mais visivelmente a emoção mística. Santa Teresa de Ávila experimentou a dissolução do divino. e depois 'de volta', não pode descrever essa experiência. Escreveu textos arrebatados, profundamente sexualizados. Foi o que encontrou, entre o ordinário e o extraordinário. São Tomás, depois de uma crise mística, considerou toda a sua obra apenas palha e vaidade. São João da Cruz achou o caminho da poesia. Nela cantou a ocultação e revelação do Amado Deus. Buda, que não pensava em deus, experimentou o êxtase da iluminação vazia de coisas e deuses - mais fora da série do comum. Exemplos religiosos? Mas há outros. Einstein, que não era especialmente religioso, quando defrontado com a física quântica, que exigia uma grande acolhimento ao acaso, uma destruição da ordem oculta do cosmos, não a aceitou, porque  'Deus não joga dados'. E 'o Senhor é sutil, mas não é malicioso'. Buscava o princípio único regente de todas as coisas. Morreu sem encontrar , mais ainda procurando essa lei maior do que as interações da matéria. Foi um místico. Quando apareceu a hipótese do big bang para dar conta de um universo vindo do nada, houve quem dissesse: 'Chamem de Deus se quiserem'. Hoje o big bang sofre contestação. O universo seria eterno. Teria o tempo que atribuímos a Deus. Uma metacosmologia está em gestação, porque a cosmologia simples não dá conta de uma coisa tão extraordinária.

Religiosa ou não, a mística aponta para o mundo na sua dimensão opaca, mas realíssima. Sempre aí. É atentos a essa dimensão que poderemos construir um outro mundo possível, futuro. Fechando os olhos para ver o extraordinário. O futuro é extraordinário. É uma dimensão transcendente da nossa vida. Acolhe o nosso  mais generoso. O desejo do futuro é uma poderosa experiência mística. Não podemos abdicar dela. Outro mundo é possível. É só fechar os olhos e ver.


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