JANEIRO BRANCO: MÊS DA SAÚDE MENTAL, SAÚDE MENTAL SEMPRE

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Falar de saúde mental é compreender que esta é, sem medo de ser audaciosa em minha posição, o território, o recurso natural, a tecnologia mais valiosa da existência que cabe ao ser humano explorar. Como ainda somos estrangeiros dentro de nós mesmos, apesar dos  importantes avanços que somos capazes de criar. 

As perspectivas de crescimento dos transtornos mentais e seus inegáveis danos à saúde e à produtividade por cada vez mais incapacitarem ao trabalho e ao desfrutar da vida, torna-se cada vez mais algo que não mais pode ser ignorado, daí a iniciativa de transformar o mês de Janeiro no mês da Saúde Mental -  JANEIRO BRANCO.

Em muitas ocasiões o PSICOLOGIA EM FOCO falou sobre o quanto se tornou insustentável manter a separação corpo e alma - O penso, logo existo de Descartes, somado a todos os pensadores que forjaram a estrutura e o funcionamento do Ocidente, tem se mostrado ineficaz ao longo dos anos para dar conta da comp…

Um olhar sobre o tempo das trambolhos




Mariana Trajano
Fonte: Revista Continente novembro - 2012

Uma das características da modernidade é a busca constante pelo novo e por conseguinte, valorização de toda e qualquer novidade. No âmbito tenológico, essa "modernização" se traduz na preservação do corpo através da automação e na otimização do tempo. Inseridos nesse contexto tendemos a valorizar tudo que é compacto e veloz: que nos poupa o corpo e tempo. Aqueles objetos que possuem maior massa ou menor velocidade não figuram nesses parâmetros, são indesejáveis, rejeitados, descartados - geralmente chamamos-lhes de "trambolhos".


No dicionário "trambolho" é definido como peso atado aos pés de animais domésticos para dificultar seu deslocamento. Trata-se, portanto, de um obstáculo, de um empecilho físico, geralmente volumoso que nos desgasta fisicamente e que nos faz perder tempo. Mas sua natureza não é absoluta, pois ele só o é em relação a outro objeto que com ele contrasta. Assim, figuram como trambolhos a carruagem em relação ao automóvel, o fogão à lenha em relação ao fogão a gás, ou a caneta tinteiro em relação à esferográfica. O trambolho possui também uma faceta histórica, ele foi a tecnologia de ponta de ontem. E a acelerada obsolência das tecnologias, principalmente as midiáticas faz com que topemos com mais exemplares desse tipo a cada dia.

A essa altura lembro-me de Walter Benjamim e Marshall Mc Luhan que, em contextos e épocas diferentes, refletiram sobre como as transformações das tecnologias cotidianas influenciam nossa cognição e performance corporal. Quais as transformações que, por exemplo, o e-mail ou o celular impuseram sobre a nossa percepção do espaço e do tempo? Ou mais propriamente, que nos oferecem nesse sentido, os trambolhos que coexistem com as atuais e pequenas maravilhas tecnológicas?. Há pouco entrevistando consumidores de discos de vinil, deparei-me com este tipo de questão. Manter ativo no dia a dia o conjunto vitrola - caixas significa estar disposto, antes de quaquer coisa, a negociar espaço e principalmente, tempo.

Cada vez que um artefato se atualiza, executamos a mesma atividade com menos esforço e menor duração. As novas tecnologias tornam possível realizar um número maior de tarefas dentro do nosso absoluto e inexorável existir biológico; eles nos abrem janelas temporais relativizando os cursos. Encontramos cada vez mais tempo e passamos a viver sob os auspícios do "enquanto".

O estudo da vitrola e do disco de vinil - verdadeiro trambolhos diante do MP# - me levou à ideia de tempo denso. Os trambolhos nos levam a essa temporalidade, pois, ao contrário dos "primos ricos" , tais objetos, desaceleram nosso tempo, nossa massa e sua performance "antiquada" não nos permitem aquela justaposição de janelas temporais.

Para que um trambolho ocupe e exerça a função a que se dispõe, ele precisa de nossa dedicação. Sua massa exige, por seu volume e, às vezes por seu material, atenção sobre nosso corpo e nosso gestos. Nossos sentidos, progressivamente treinados a dar conta de inúmeros estímulos simultâneos são forçados a fechar o foco e enxergar, mesmo que por um breve momento, apenas aquele objeto e sua performance. tais objetos, que constantemente se formam e dos quais procuramos de vez em quando nos livrar - correspondências de papel, videocassetes, telefones com fio, máquinas de escrever são espécie de ilhas de tempo e massas que o atraem e o impedem de correr. Somos obrigados a parar e olhar, antes de seguir em frente.

Obviamente há uma mudança qualitativa. qualquer alteração no modo como utilizo meu corpo, espaço e tempo gerará por conseguinte, alterações no como percebo e imponho significado a esses mesmos elementos. Correndo o risco de soar romântica, acredito que existe algo enriquecedor em escrever uma carta, de próprio punho, com letras caprichadas e, talvez, até perfumada, e vê-la sumindo na caixa de correio. E o que dizer da ansiedade gerada por esperar um disco chegar às lojas e do prazer de voltar com ele embaixo de braço? Se refletirmos sobre essas ações, veremos como eles aumentaram nosso níveis de ansiedade, angústia e medo, fazem-nos criar novas soluções com maior frequência; obrigam-nos, enfim a (re) aprender a dedicar tempo às coisas.

A antropóloga Jania Caiafa trata esse tema por outro viés. Em seu livro No Séc XXI - Notas sobre arte, técnica e poderes, ela chama a atenção para o presente com sendo a época da "disponibilidade"; uma época naa qual indivíduos são bombardeados por dispositivos que aumentam atitudes autoindulgentes.
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Hoje, tudo chega "com um clique", tudo é "interativo". A pessoa não se depara mais com aquilo que lhe é estranho ou que lhe impõe uma maior dose de trabalhos; seu ambiente se torna cada vez mais espelho, tudo o mais funciona para não o contrariar. As tecnologias cotidianas buscam o menor nível possível de ruído para quem consome seus produtos e conteúdos. O indivíduo contemporâneo perde-se perde a capacidade de lidar com o diferente, com o que o contesta, com o inesperado - e isso tudo, de certa forma, o infantiliza, empobrece-lhe a sensibilidade.

A questão não é tecnofóbica: escreve muito satisfatoriamente essas palavras em um computador, e quando aparece alguma urgência e estou no meio da rua, agradeço por ter um smartphone dentro da bolsa. Porém acredito na existência de algumas dimensões da nossa vida em que o tempo denso dos trambolhos - todos os percalsos oferecidos por sua materialidade e performance - nos oferece experiência emocional. Um viva ao Ipad, mas não há preço que pague o prazer de ir a uma banca, comprar uma revista e correr-lhe nossos olhos e mãos. a vida nos exige praticidade ao mesmo tempo que nos pede o mínimo de cerimônia.

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