PAROLAGEM DA VIDA: SOBRE A IMPORTÂNCIA DAS ARTES PEDINDO LICENÇA A DRUMMOND



Parolagem da Vida
(Carlos Drummond de Andrade)


Como a vida muda.

Como a vida é muda.

Como a vida é nula.

Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!

O PSICOLOGIA EM FOCO sempre teve como uma de suas propostas, a valorização de todas as expressões artísticas por considerar estas como um dos mais importantes instrumentos de emancipação do Homem.Não me refiro apenas aos grandes artistas que sensibilizaram a Humanidade com suas criações, mas também aos pequenos projetos de periferia dos artistas anônimos, multiplicadores do seu talento, condutores da beleza e da esperança  em ambientes carentes de tudo. Todos somos artistas no momento em que nossa alma em contemplação se enternece e se assombra com a Beleza e se descobre capaz de produzir Beleza.

Ouso dizer que o Homem tem sede de Beleza e do Sublime.

Em tempos de livrarias se extinguindo, de centros culturais, cinemas e teatros sofrendo para se manterem vivos, de escolas de teatro se deteriorando, de verbas destinadas à cultura sendo reduzidas precarizando bibliotecas e outras instituições públicas similares, dá uma tristeza tão grande ver tudo assim, mas é preciso continuar acreditando que a Humanidade em algum momento haverá de pesar os caminhos percorridos até então, pois, é fato que caminhamos para um impasse ético-moral que em algum momento teremos que repensar os nosso rumos. Que a sede do Belo e do Sublime prevaleçam. É  a minha torcida. Sempre...

Regina Bomfim



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