Uma reflexão bastante conveniente nos tempos atuais

***O que está nos deixando doentes é uma...** epidemia de diagnósticos**
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*por Gilbert Welch, Lisa Schwartz e Steven Woloshin***
CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA DE SÃO PAULO
http://www.cremesp.org.br/?siteAcao=Jornal&id=954
* Gilbert Welch é autor da obra Should I Be Tested for Cancer? Maybe Not and
Here’s Why (University of California Press). Lisa Schwartz e Steven Woloshin
são pesquisadores sêniores do VA Outcome Group em White River
Junction.
Este artigo foi publicado no jornal The New York Times, em 02/01/2007.
Tradução: Daniel de Menezes Pereira


Para a maioria dos americanos, a principal ameaça à saúde não é a gripe
aviária, a febre do Nilo ou o mal da vaca louca. Mas sim o próprio sistema
de saúde. Você pode pensar que isso é porque os médicos cometem erros (sim,
nós erramos). Mas você jamais será vítima de um erro médico se você não está
no sistema. A maior ameaça apresentada pela medicina americana é o fato de
cada vez mais estarmos nos afundando nesse sistema, não por uma epidemia de
doenças, e sim por uma epidemia de diagnósticos. Apesar de os americanos
viverem mais do que nunca, cada vez mais nos falam que estamos doentes.
Como isso é possível? Um dos motivos é que nós (americanos) empregamos mais
recursos aos cuidados médicos que qualquer outro país. Parte deste
investimento é produtivo, cura doenças e alivia sofrimentos. Mas isso também
nos conduz a cada vez mais diagnósticos, uma tendência que se transformou em
epidemia.
Essa epidemia é uma ameaça à saúde e tem duas fontes distintas. Uma delas é
a 'medicalização' da vida cotidiana. A maioria de nós passa por sensações
físicas ou psicológicas desagradáveis que, no passado, eram consideradas
como parte da vida. No entanto, hoje tais sensações são consideradas, cada
vez mais, como sintomas de doenças. Eventos como insônia, tristeza,
inquietação de pernas e diminuição do apetite sexual, hoje, se transformam
em diagnósticos: distúrbio do sono, depressão, síndrome de pernas inquietas
e disfunção sexual.
Talvez ainda mais preocupante seja a medicalização da infância. Se uma
criança tossir depois de fazer exercícios, ela tem asma. Se tiver problemas
com leitura, é disléxica. Se estiver infeliz, tem depressão. Se alternar
entre euforia e tristeza, tem distúrbio bipolar. Se por um lado esses
diagnósticos podem beneficiar algumas pessoas com sintomas graves, por outro
é necessário ponderar o real efeito de tais sintomas, que em muitos casos
são brandos, intermitentes ou transitórios.
Outra fonte é o empenho por descobrir doenças o quanto antes. Diagnósticos
eram usualmente restritos a moléstias graves. Hoje, no entanto, nós
diagnosticamos doenças em pessoas que absolutamente não apresentam sintomas,
os famosos 'grupos de risco' e as pessoas com 'predisposição'.
Dois progressos aceleram esse processo. Em primeiro lugar, a avançada
tecnologia permite que os médicos olhem profundamente para as coisas que
estão erradas. Nós podemos detectar marcadores no sangue. Nós podemos
direcionar aparelhos de fibra ótica dentro de qualquer orifício. Além disso,
tomografias computadorizadas, ultrassonografia, ressonâncias magnéticas e
tomografias por emissão de pósitrons permitem que os médicos exponham, com
precisão, tênues defeitos estruturais do organismo.
Essas tecnologias tornam possíveis quaisquer diagnósticos em qualquer
pessoa: artrite em pessoas sem dores nas juntas, úlcera em pessoas sem dores
no estômago e câncer de próstata em milhões de pessoas que, não fosse pelos
exames, viveriam da mesma forma e sem serem consideradas pacientes com
câncer.
Em segundo lugar, as regras estão mudando. Conselhos de especialistas,
constantemente, expandem os conceitos de doenças: todos os valores de
referência para o diagnóstico de diabete, hipertensão, osteoporose e
obesidade caíram nos últimos anos. O critério utilizado para considerar o
nível de colesterol normal despencou múltiplas vezes. Com estas mudanças,
doenças agora são diagnosticadas em mais da metade da população.
A maioria de nós acredita que estes diagnósticos adicionais sempre
beneficiam os pacientes. E alguns, de fato, são benéficos. Mas, por fim, a
lógica das detecções antecipadas é absurda. Se mais da metade de nós está
doente, o que significa estar 'normal'? Muitos de nós estamos predispostos –
e em algum dia podemos ficar doentes – e todos nós somos dos 'grupos de
risco'. A medicalização na vida cotidiana é muito problemática. O que,
exatamente, estamos fazendo com nossas crianças, uma vez que 40% das que vão
acampar estão sujeitas a uma ou mais prescrições crônicas de medicamentos?
Ninguém deveria adotar a conduta de transformar pessoas em pacientes, ainda
que sem gravidade. Isto gera grandes prejuízos. O fato de rotular pessoas
como doentes pode deixá-las ansiosas e vulneráveis, em especial as crianças.
Mas o principal problema é que a epidemia de diagnósticos conduz a uma
epidemia de tratamentos. Nem todos os tratamentos têm reais benefícios, mas
quase todos podem ter prejuízos. Algumas vezes os prejuízos são conhecidos,
no entanto, freqüentemente os prejuízos de algumas terapias levam anos para
serem descobertos, após muitas pessoas já terem sido expostas aos
malefícios.
Para pacientes com doenças severas, estes malefícios, geralmente, perdem a
importância diante dos potenciais benefícios. Mas para pacientes com
sintomas mais brandos os malefícios são muito mais relevantes. Além disso,
para pacientes rotulados como 'predispostos' ou de 'grupos de risco' que
estão destinados a permanecer saudáveis, o tratamento só pode causar
prejuízos.
A epidemia de diagnósticos tem muitas causas. Mais diagnósticos significa
mais dinheiro para a indústria farmacêutica, hospitais, médicos e advogados.
Pesquisadores e até mesmo organizações federais de medicina asseguram suas
posições (e financiamentos) promovendo a descoberta de 'suas' doenças.
Preocupações médico-legais também conduzem à epidemia. Se por um lado uma
falha no diagnóstico pode ser objeto de uma ação judicial, por outro não
existe qualquer punição para diagnósticos exacerbados. Além disso, o que os
clínicos menos têm dificuldade de fazer é diagnosticar desenfreadamente,
mesmo quando existem dúvidas de se diagnosticar, ou não, realmente vai
ajudar nossos pacientes.
Desta forma, quanto mais nos falam que estamos doentes, menos nos dizem que
estamos bem. As pessoas precisam ponderar sobre os riscos e benefícios da
ampliação de diagnósticos. A questão principal a ser enfrentada é sobre ser
ou não um paciente. E os médicos precisam relembrar do valor que tem ou não
um paciente. E os médicos precisam relembrar do valor que tem assegurar a
uma pessoa que ela não está doente. Talvez se devesse começar a estudar uma
nova medida de saúde: a proporção da população que não precisa de cuidados
médicos. E as instituições nacionais de saúde poderiam propor uma nova meta
para os pesquisadores: reduzir a demanda de serviços médicos, ao invés de
aumentá-la.
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Sabina Vanderlei
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