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MÁGOA E RESSENTIMENTO

MÁGOA E RESSENTIMENTO



Por Regina Bomfim

Há acontecimentos em nossas vidas que deixam marcas, como cicatrizes alojadas na alma... Aquilo fica ali, guardado e a vida segue seu rumo. Ou pensamos que a vida segue. É uma pessoa ou situação que consideramos injusta, como uma palavra agressiva; um amor que se foi numa hora quando parecia tudo perfeito, para sempre e o "pra sempre, sempre acaba", como dizia na canção de Renato Russo; um amigo, um colega de trabalho querido e considerado de confiança, "te puxa o tapete", quando pessoas consideradas afetivamente essenciais não te dão crédito... São cenas carregadas de emoção que ficam armazenadas na nossa mente como um filme. E por mais que a vida caminhe, estas cenas estarão de algum modo presentes, pulsantes e situações semelhantes acabam acontecendo.

Falo da mágoa e do ressentimento mesmo sem que percebamos à primeira vista, faz com que nossa existência se pareça em alguns momentos como um CD arranhado. Muito engraçado os mecanismos da vida, Ou seja, o "cenário" é diferente mas as situações se repetem de algum modo. É o nosso círculo vicioso emocional.

Um momento de muita felicidade pode gerar cenas boas capazes de nos sustentar em situações adversas, mas podem nos aprisionar na negação de enfrentar outras realidades menos felizes que após muitas e muitas lágrimas podem se mostrar úteis, e ser mesmo um tipo de "passaporte" para que a vida nos apresente outros cenários. Isso quase concluímos bem depois.

Aprisionar, prisão, apego. Mágoa, ressentimento e todo sentimento que tira da vida sua essencial força dinâmica e transformadora são paliativos que nossa alma pode usar para se sustentar nos momentos difíceis por ainda não poder lidar com a situação "de frente".

Somos nós funcionando no mundo com uma energia aquém das nossas reais possibilidades. Quando aprisionamos concentramos nossa energia vital num ponto, deixando outros setores da vida sem abastecimento. São algemas que colocamos na nossa alma sem perceber. Isso pode acontecer sim, em momentos de fragilidade. Somos humanos.

Estou aqui para falar destes sentimentos socialmente vistos como negativos não para provocar um sentimento de culpa e autodepreciação. Escrevo como alguém que busca resignificar estes sentimentos em mim mesma, sem buscar concluir nada, sem querer me mostrar nobre, mas fazer um convite para que possamos ousar olhar para a nossa "sombra". Todo mundo tem a sua.

Vejo cada vez mais que a vida é uma experiência que exige de nós um vigor e quanto mais buscamos a leveza de ser nós mesmos na nossa luz e sombra, pode ir ficando mais fácil aprender a trafegar entre as flores e espinhos que no fundo acabam por nos ensinar algo.

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