UM PAPO SOBRE ECONOMIA

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Será que para ter afeto, se sentir respeitado, você precisa abrir mão de si mesmo? Será que na economia dos sentimentos acaba sempre sendo um preço muito caro a ser pago?

Regina Bomfim



Texto: Paulo Freire. Pedagogia da Esperança. Rio de Janeiro.Paz e Terra, 1992, p. 47-49





" Minha experiência vinha me ensinando que o educando precisa de se assumir como tal, mas assumir-se como educando significa reconhecer-se como sujeito que é capaz de conhecer e que quer conhecer em relação com outro sujeito capaz de conhecer, o educador e, entre os dois, possibilitando a tarefa de ambos, o objeto do conhecimento. Ensinar e aprender são momentos de um processo maior, o de conhecer, que implica re-conhecer. No fundo, o que eu quero dizer é que o educando se torna realmente educando quando a medida que conhece ou vai conhecendo os conteúdos, os objetos cognoscíveis, e não à medida que o educador vai depositando nele a descrição dos objetos, ou dos conteúdos.

O educando se reconhece conhecendo os objetos, descobrindo que é capaz de conhecer, assistindo à imersão dos significados em cujo processo se vai tornando também significador crítico. Mais do que ser educando por causa de uma razão qualquer, o educando precisa tornar-se educando assumindo-se sujeito cognoscente e não como incidência do discurso do educador. Nisso é que reside, em última análise, a grande importância do ato de ensinar. Entre outros ângulos, este é um que distingue uma educadora ou educador progressivista de seu colega reacionário.

" Muito bem", disse em resposta à intervenção do camponês. "Aceito que eu sei e vocês não sabem. De qualquer forma, gostaria de lhes propor um jogo que, para funcionar bem, exige de nós absoluta lealdade. Vou dividir o quadro negro em dois pedaços, em que irei registrando, do meu lado e do lado de vocês, os gols que faremos eu, em vocês; vocês em mim. O jogo consiste em cada um perguntar algo ao outro. Se o perguntado não sabe responder, é gol do perguntador. Começarei o jogo fazendo uma primeira pergunta a vocês".

A essa altura, precisamente porque assumira o "momento" do grupo, o clima era mais vivo que quando começamos, antes do silêncio.

Primeira pergunta?
- O que significa maiêutica socrática?
Gargalhada geral e eu registrei meu primeiro gol.
- Agora cabe a vocês fazer a pergunta a mim - disse.
Houve uns cochichos e um deles lançou a questão:
- Que é curva de nível?
Não soube responder. Registrei um a um
- Qual a importância de Hegel no pensamento de Marx?
Dois a um.
- Para que serve a colagem do solo?
Dois a dois.
Que é um verbo intransitivo?
Três a dois.
Que relação há entre curva de nível e erosão?
Três a três.
Que significa epistemologia?
Quatro a três.
- O que é adubação verde?
Quatro a quatro.

Assim sucessivamente até chegarmos a dez a dez.

Ao me despedir deles lhes fiz uma sugestão: "pensem no que houve esta tarde aqui. Vocês começaram discutindo muito bem comigo. Em certo momento ficaram silenciosos e disseram que só eu poderia falar porque só eu sabia e vocês não. Fizemos um jogo sobre saberes e empatamos dez a dez. Eu sabia dez coisas que vocês não sabiam e vocês sabiam dez coisas que eu não sabia. Pensem sobre isto".

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