Por Édson Carlos - é presidente do Instituto Trata Brasil
Fonte: Jornal O Globo - Opinião (05/06)

Muita controvérsia paira sobre a Rio+ 20 e ninguém sabe ao certo como e o que acontecerá nestas duas semanas em que o mundo estará atento ao Brasil. São tantas atividades, tantas autoridades e temas, que fica difícil saber ao certo, mesmo para aqueles mais interessados, onde ir, o que visitar, ao que assistir.

A expectativa não é fruto somente do bombardeiro de informações que aumenta com a chegada da conferência, mas principalmente da relevância que o tema ambiental tomou em nossas vidas. Sabemos que os impactos na natureza transpassam as barreiras do meio ambiente e nos alertam em todas as demais áreas da vida, principalmente em nossa saúde.

As discussões sobre a Rio+ 20 são, portanto, muito pertinentes, mas a maior parte da população assiste à chegada da conferência sem entender bem o que esperar, se é que se pode esperar algo. Temos que aproveitar a oportunidade para debater os grandes temas internacionais - o futuro do clima, da energia, da água, da vida nas cidades, mas principalmente discutir a pobreza, o mais importante de todas os impactos ambientais.

Temos que chamar a atenção dos envolvidos para as graves lacunas que ainda separam os países que perpetuam as desigualdades. É fato que somente o fator econômico não é suficiente para resolver os problemas, como o Brasil está provando. Avançar nos indicadores ambientais e sociais tem sido muito mais difícil do que do que melhorar a posição entre os países ricos. Melhorar estes índices depende fortemente dos poderes locais e da mobilização do cidadão sobre suas mazelas, da cobrança sem trégua às autoridades.

É fundamental que a Rio + 20 olhe para o micro. Em muitos países ainda não se consegue dar ao cidadão menos favorecido o que existe de mais básico. Perpetuamos doenças da Idade Média e continuamos sendo vítimas de descasos históricos. A falta de saneamento básico é a melhor demonstração de que o essencial continua sendo deixado em segundo plano. Não dispor de serviços como água tratada, coleta e tratamento dos esgotos afronta a dignidade humana. Segundo a própria Organização das Nações Unidas, a falta desses serviços afeta mais de 2 bilhões de pessoas em todo mundo, particularmente as crianças, os pobres e os desfavorecidos. A ONU projeta que, a continuar assim, em 2015 serão quase 3 bilhões.

Os índices brasileiros são vergonhosos. Um em cada cinco brasileiros ainda não têm suas casas conectadas a uma rede de esgoto e muito pouco do esgoto coletado é tratado. Perdemos quase 40% da água tratada que deveria chegar às nossas torneiras. Como explicar que uma das maiores economias do mundo fique nessa situação, mantendo suas crianças à mercê de diarréia, cólera, hepatite, verminose e tantas outras doenças da água poluída?

Pesquisa feita pela Fundação Getúlio Vargas para o Instituto Trata Brasil em 2009 mostrava que, à época quase 700 mil crianças entre 0 e 5 anos eram internadas por diarréia no país, e quase 220 mil trabalhadores tiveram de se afastar do trabalho por causa desse problema. Passaram vinte anos desde a Rio- 92 e continuamos poluindo a pouca água que temos. De acordo com o último Atlas da Agência Nacional das Águas, publicado em 2011, 55% dos seus 5.565 municípios do país podem sofrer desabastecimento de água nos próximos quatro anos e 84% das cidades necessitam de investimentos para adequar seus sistemas produtores de água.

Então o que pensar num cenário onde se estima um aumento da população, projetado no Atlas, de 5 milhões de habitantes até 2025? Ainda segundo o estudo, seriam necessários os 70 bilhões apenas para melhorar, ampliar e proteger os sistemas produtores de água; uma boa parte disso para coletar e tratar os esgotos jogados indiscriminadamente nos mesmos locais de onde se retira água para a população.

É impossível, portanto, falar em desenvolvimento sustentável enquanto perdurar esta poluição generalizada, vexatória em todos os sentidos. A solução não é simples, sabemos disso. São necessários muitos recursos e muito investimento, mas o país não pode mais se esconder atrás das dificuldades. Levar saneamento básico a todos é o mínimo, uma obrigação em qualquer lugar lugar do mundo. No Brasil estamos avançando, é verdade, mas ainda a passos lentos. Os recursos do PAC, tão importantes para mudar o cenário, ainda não conseguiram ser essa alavanca, mesmo após cinco anos de programa.

Nestes dias em que celebramos a natureza e a Rio +20, nos cabe torcer para que a salvação da natureza venha com debates que apontem caminhos para reduzir a desigualdade, a pobreza, a desinformação e a inércia, tanto do cidadão quanto das autoridades. Para o Brasil, torcer para que as autoridades discutam o básico, o essencial. que se dediquem às carências mais imediatas do nosso povo. Se isso for conseguido, a Rio + 20 já terá sido um sucesso e deixará o tal legado de que tantos ouvimos falar, mas que nunca conseguimos testemunhar.