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BRIGA DE RUA




BRIGA DE RUA
 
Por Martha Medeiros

Fonte: Revista O Globo

Estava voltando da minha caminhada habitual, de manhã. Foi então que vi um
carro imbicado na entrada da garagem de um edifício, com as quatro portas
abertas, e, antes que eu achasse estranho, comecei a ouvir gritos. Ao lado
do carro, um garoto de uns quatro anos que chorava muito. chorava de medo e
susto: sua mãe berrava com o seu pai. Um pai igualmente descontrolado que a
impedia de entrar no prédio com a criança. O que havia acontecido? Não sei,
não os conheço, não consigo imaginar o que motivou esse barraco, só sei que
fiquei em choque diante da cena: uma mulher no auge da sua fúria,
histérica, ordenando que aquele homem desaparecesse, que sumisse, e ele
chorando e ao mesmo tempo segurando-a pelo braço, até que ela se
desvencilhou e deu um tapão na cara dele, e outro, a criança no colo
apavorada, e eu parada a poucos metros de distância sem saber se acudia, se
fugia, sem um celular para chamar alguém - vá que ele esteja armado? Aquilo
poderia terminar em tragédia. A gritaria dos personagens de "Avenida
Brasil" em comparação, pareceria a um coral de querubins.

Com a ingenuidade que me é característica, cheguei a pedir, parem com isso,
conversem depois, olhem as crianças, e foi então que me dei conta que elas
estavam mesmo no plural, havia outra criança presa a uma cadeirinha dentro
do carro, uma menina de não mais de 2 anos, que chorava também. A essa
altura outros transeuntes pararam, circundamos o casal, mas todos sem ação
imobilizados pelo ditado "em briga de marido e mulher, não se mete a
colher", mas não se mete mesmo? Uma senhora tentou tirar o menino do colo
da mãe para que ele não recebesse um safanão sem querer, mas o menino,
lógico, esticou os braços e quis, a despeito de todos os riscos que nem
sabia que estava correndo, e o que mais me impressionava nem era aquele
homem desfigurado, impedindo a passagem dela, nem o menino que chorava
diante de uma cena diante de uma cena que jamais irá esquecer, mas a
mulher, a mulher que não chorava, e sim berrava 'NÃO TOCA EM MIM", berrava
"SAI DA MINHA FRENTE", Berrava e batia naquele homem que era duas vezes o
seu tamanho, berrava de uma maneira surtada, assustadora, com uma voz que
nem parecia vir dela, mas de uma fera que a habitava, berrava com uma raiva
e um tormento que não podia ser maior. Ela havia chegado a um limite, dali em diante ela iria matá-lo, se matá-lo
fosse possível.

Foi então que entendi como acontecem esse crimes passionais que ocorrem
longe dos nossos olhos, entre quatro paredes: por algum motivo, um homem ou
uma mulher, ou ambos tornam-se irracionais. Não se escutam, não conversam,
não preservam seus filhos, não percebem o entorno, viram dois selvagens,
até que um deles escape ou morra.

Ela escapou. Um rapaz interveio segurou o homem, e ela entrou no prédio com
as duas crianças. Perdida a batalha, ele ficou socando o chão, fora de si.
Tudo isso numa das avenidas mais movimentadas da cidade, às 11 horas da
manhã. Voltei para casa arrasada. Tenho o estômago fraco para a estupidez e
a brutalidade, descontroles emocionais me parecem terrivelmente
ameaçadores. Nunca saberei quem era a real vítima da história, quem estava
com a razão, e não estranharia se hoje os encontrasse de mãos dadas com as
pazes feitas, que isso é mais comum do que se pensa. Mas a violência do ato
existiu, e foi testemunhado por duas crianças.

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