domingo, 18 de março de 2012

Questionar e ensinar

 




Por Rogério Miranda de Almeida - Doutor em filosofia pela Universidade de Metz (França) e em Teologia pela Universidade de Estrasburgo. Professor no Programa de Pós - Graduação da Pontíficia Universidade Católica do Paraná (PUC- PR). Publicou os seguintes livros: Nietzche e Freud - Eterno Retorno e Compulsão à Repetição (2005); Eros e Tânatos: A Vida, A Morte, o Desejo (2007). Todos pela Edições Loyola.

O ensino da filosofia, uma das mais nobres tarefas pedagógicas, é ao mesmo tempo uma das mais difíceis. Difícil porque, dada a própria origem da filosofia ocidental - cujo berço é a Grécia e, mais precisamente, a costa Jônica do séc 6 a.C -, a questão em torno da qual ela girava era do ser enquanto ser. Em outros termos, indagavam-se os jônicos: por que, a despeito do nascimento, da corrupção e da morte das coisas sensíveis, tudo permanece como se fosse o mesmo? Deve, pois, haver - completavam esses estudiosos da natureza - por trás do mundo fenomênico algo que nem envelhece e nem morre. Esse algo - representado ora pela água, ora pelo "indeterminado", ora pelo ar, ora pelo fogo ou, mais tarde, na visão de Empédocles de Agrigento, pelos quatro elementos juntos, era aquilo que, em última instância, constituiria o ser na sua indestrutibilidade e imutabilidade.


Algo do séc 5 a.C, a questão filosófica se deslocará para o próprio homem. ela se desdobrará sob a forma do "conhece-te a ti mesmo" efetuado por Sócrates, e sob a modalidade do ensino, das convenções, da eloquência e da antinomia entre natureza e cultura. É  a questão dos sofistas e, consequentemente, da oposição entre os sofistas, Sócrates e Platão que, ao contrário daqueles, acentuavam a essência ou a natureza das coisas e do homem, e não a sua aparência.


Toda essa problemática, juntamente com as indagações que marcarão a Idade Média, os tempos modernos e a fase contemporânea, se acham desenvolvidas no meu livro, intitulado Eros e Tânatos: a Vida, a Morte, o Desejo, Edições Loyola, 2007, assim como em outra obra, que será brevemente publicada pela mesma editora, sob o título: A Fragmentação da cultura e o Fim do Sujeito.


Estas duas obras poderão, talvez suscitar a interrogação seguinte: em que consiste hoje o ensino de filosofia, se as interrogações que agora se colocam não mais têm como foco a essência última das coisas e do homem - como entre os gregos clássicos e os pensadores medievais - mas, antes, o ser considerado antropologicamente? Assim, na perspectiva da filosofia moderna, a pergunta se volta para o homem, ou para o anthropos, visto e examinado a partir de suas manifestações culturais ou de sua capacidade de construir e produzir seu próprio mundo e, consequentemente, a sua própria liberdade. Já do ponto de vista da filosofia contemporânea e, sobretudo, a partir do séc 19, o problema que se faz ressaltar é aquele desejo, do inconsciente, das forças, das pulsões, das significações e, em suma da linguagem.


Certo, são as mesmas questões que retornam, mas levantadas, examinadas, denominadas e significadas de maneira diferente ou, para dizê-lo nietzcheanamente, são as mesmas questões que se repetem, mas transformadas em novas verdades, em novas visões, em novas valorações e em novas interpretações. O que se verifica atualmente, porém, é um aceleramento cada vez maior dessas questões que não cessam de se desdobrar, de se acirrar e, ao mesmo, de se fragmentar.


Fonte: Revista Filosofia - Conhecimento Prático p. 66 Edt: Escala Educacional (n. 34)
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