JANEIRO BRANCO: MÊS DA SAÚDE MENTAL, SAÚDE MENTAL SEMPRE

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Falar de saúde mental é compreender que esta é, sem medo de ser audaciosa em minha posição, o território, o recurso natural, a tecnologia mais valiosa da existência que cabe ao ser humano explorar. Como ainda somos estrangeiros dentro de nós mesmos, apesar dos  importantes avanços que somos capazes de criar. 

As perspectivas de crescimento dos transtornos mentais e seus inegáveis danos à saúde e à produtividade por cada vez mais incapacitarem ao trabalho e ao desfrutar da vida, torna-se cada vez mais algo que não mais pode ser ignorado, daí a iniciativa de transformar o mês de Janeiro no mês da Saúde Mental -  JANEIRO BRANCO.

Em muitas ocasiões o PSICOLOGIA EM FOCO falou sobre o quanto se tornou insustentável manter a separação corpo e alma - O penso, logo existo de Descartes, somado a todos os pensadores que forjaram a estrutura e o funcionamento do Ocidente, tem se mostrado ineficaz ao longo dos anos para dar conta da comp…

DISCUTIR A RELAÇÃO


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Ana Cristina Reis
Fonte: O Globo



Acho admirável quem é capaz de chamar o parceiro para conversar. Não sei discutir a relação; não tenho essa aptidão. De três, uma: a conversa vai ser maçante; a conversa não vai levar a nada; a conversa vai levar a outra conversa. Mas sou gato escaldado: meus pais, tios e avôs são todos separados, e a única vez em que “marquei uma conversa” foi a única vez em que meu marido se esqueceu de que tinha um compromisso comigo.

DR é a expressão moderninha para discutir a relação, mas a prática é antiquíssima. O professor Marcelo Backes, falando da “Medeia” de Eurípides, ressaltou que a peça foi uma das primeiras obras da história a “discutir a relação”. Sim, estou de volta aos cursos na Casa do Saber O GLOBO. O tema da vez é Grandes Mulheres Trágicas da Literatura.

Para começar, senti a maior empatia pelo autor. Eurípides, além de austero, pouco sociável, individualista, ascético e crítico, detestava ginástica: “De todas as milhares de pragas da Grécia não há nenhuma pior do que a raça dos atletas”.

Seus temas preferidos (todo clássico nasce moderno; a antiguidade era freudiana e não sabia) eram as agitações da alma; casos psicológicos extremos; personagens atormentados por sentimentos internos dolorosos; gente no limiar da loucura; e a condição submissa da mulher, que ele abominava, dizem os estudiosos, apesar de ter caracterizado a mulher como “mais terrível que a serpente” e “o pior dos monstros”.

Me fez lembrar uma passagem do seriado “The fall”, em que a policial Stella diz, embasada em pesquisa: “O maior medo dos homens é que as mulheres riam deles; o maior medo das mulheres é que os homens as matem”. A mitologia não sabia dessa pesquisa: Medeia achava que Jasão, ao não cumprir sua promessa de lhe ser fiel, tinha rido dela; e Jasão, acreditando que ganharia a anuência da mulher na lábia (“Por mais que me odeies, eu jamais saberia querer-te mal”, ele teve a ousadia de dizer), não previu o revide: o assassinato de seus filhos com Medeia e da segunda mulher. Medeia não o matou: isso seria misericórdia.

Com o perdão do trocadilho, a vida de Medeia é a crônica de uma tragédia anunciada: se você ficar para sempre comigo, eu farei tudo por você, foi o que combinou com Jasão. E Medeia fez muito: abandonou seu país, matou o irmão, deu recursos ao marido para que vencesse batalhas horripilantes, teve dois filhos.

O marido prometeu. E não cumpriu. Prometer e não cumprir vem de tempos imemoriais. A diferença é que na Grécia Antiga havia a noção de timé. O termo, que pode ser traduzido como honrar, estimar ou dar valor, estava intrinsecamente vinculado à identidade de uma pessoa na sociedade. Ao sacrificar tudo por Jasão (não vamos discutir aqui se abrir mão de tudo por alguém é burrice ou amor...), ela esperava que seu homem a valorizasse. Em vez disso, ele a trocou pela filha de Creonte.

De um lado, a decepção (“Aquele que era tudo para mim se tornou o mais pérfido dos homens”). De outro, o desterro social. Medeia não podia voltar para casa; estava desonrada. Naquele tempo, existia vergonha na cara.

Somando tudo, nasce uma vingança proporcional à sua desgraça. Como diria Chico Buarque ,“Já lhe dei meu corpo, minha alegria/Já estanquei meu sangue quando fervia/ Olha a voz que me resta/ Olha a veia que salta/ Olha a gota que falta/ (...) Deixe em paz meu coração. Que ele é um pote até aqui de mágoa/ E qualquer desatenção, faça não/ Pode ser a gota d'água”.

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Qualquer semelhança da obra de Eurípides com a programação do canal Investigação Discovery (“DNA criminoso”, “Amor assassino”, “Pecados mortais”, “Suspeito improvável”, “Crimes de primeira”, “Paixões perigosas”) não é coincidência ou ficção — é a tragédia da vida. 



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